Márcio Ferreira/Governo de Alagoas
Márcio Ferreira/Governo de Alagoas

Saiba quem é Rolando Alexandre de Souza, novo diretor da PF

'Político mata muito mais que bandido', já afirmou delegado, que é visto como braço direito de Alexandre Ramagem

Bruno Nomura e Carlos Nealdo, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 11h26

Novo diretor-geral da Polícia Federal, o delegado Rolando Alexandre de Souza já defendeu que políticos corruptos são mais perigosos que “traficantes da esquina” e que sua prioridade no órgão é combater a corrupção. Sua nomeação ocorre depois que Alexandre Ramagem teve indicação suspensa por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Rolando Alexandre de Souza era considerado o braço direito de Ramagem na Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ocupava o cargo de secretário de Planejamento e Gestão da instituição. Antes de chegar à Abin, em setembro de 2019, Souza era superintendente regional da PF em Alagoas.

Discreto, sua aparição na imprensa ou nas operações realizadas pela PF em Alagoas era tímida. Em uma das raras entrevistas que concedeu à imprensa alagoana, em março de 2018, logo após sua solenidade de posse, Rolando Alexandre defendeu um trabalho integrado entre as forças de segurança do estado alagoano.  "As forças de segurança estão engajadas para uma Alagoas melhor. O trabalho aqui será o de fortalecer a integração das forças policiais e o de fomentar o combate à corrupção, ao crime organizado e ao tráfico de drogas. O Estado pode contar conosco para todas as áreas envolvendo a segurança pública", declarou, na época.

Na ocasião, ele deixou claro que o combate à corrupção seria um dos seus principais focos à frente da superintendência da PF. "Temos vários outros crimes que também são atribuição da Polícia Federal e devemos combater todos, mas o combate à corrupção é o número um hoje para a PF", disse. b"Nós vamos apertar esse cerco com a integração de órgãos de fiscalização. Unidos e integrados, esses órgãos têm uma força de atuação muito maior do que isoladamente, e é isso que buscamos em Alagoas", argumentou.

Sob seu comando, a PF de Alagoas realizou algumas operações contra a corrupção, principalmente no interior no estado. Numa delas - ocorrida em setembro do ano passado, em São José da Tapera, a 220 km de Maceió - foram presas oito pessoas, entre elas o ex-prefeito do município, Jarbas Pereira Ricardo, acusadas de desvio de R$ 5 milhões do antigo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef).

Durante as apurações, a PF constatou que os contratos administrativos de licitações foram executados pela Prefeitura de São José da Tapera sem disponibilidade financeira. Em seguida, os pagamentos eram realizados sem a respectiva documentação comprobatória da execução e ou do recebimento.

Em outra operação, realizada em junho do ano passado, a PF cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Maceió, para apurar um esquema de sonegação fiscal, falsificação de documentos e formação de quadrilha praticadas por um empresário alagoano. O nome do suspeito não foi divulgado. Segundo a PF, os prejuízos aos cofres públicos ultrapassariam os R$ 10 milhões. 

Na última operação sob o comando de Souza à frente da superintendência de Alagoas, a PF cumpriu 16 mandados de busca e apreensão num esquema de lavagem por meio de compras de imóveis em leilões públicos. Os mandados, que também ocorreram em Curitiba (PR), foram autorizados pelo Supremo Tribunal Federal. Os crimes teriam ocorrido em 2010, 2011, 2012 e 2016. "As compras serviriam para ocultar e dissimular a utilização de recursos de origem ilícita, bem como viabilizar a ocultação patrimonial dos bens e convertê-los em ativos lícitos”, disse, em nota, a Polícia Federal na época.

Suza foi substituído na superintendência da PF de Alagoas em novembro de 2019 pelo delegado João Vianey Xavier Filho, que atuou na operação que resultou na prisão de suspeitos de hackear autoridades do governo federal, entre eles o ministro da Justiça, Sérgio Moro.

O delegado também foi chefe do Serviço de Repressão a Desvios de Recursos Públicos (SRDP), situado na sede da PF em Brasília. Em uma palestra em 2017, afirmou que políticos corruptos são mais perigosos que “traficantes da esquina”. “A corrupção mata. Achar que o traficante da esquina é mais perigoso que o político corrupto é uma falácia. Político mata muito mais que bandido”, declarou no Encontro Nacional sobre Cooperação para Prevenção e Combate à Corrupção, realizado pela Rede de Controle da Gestão Pública de Mato Grosso.

Nomeação

Como mostrou o Estado, a nomeação de Rolando é vista como uma alternativa do presidente para manter a influência de Ramagem, que é próximo à família Bolsonaro, na Polícia Federal. Segundo interlocutores do presidente, o diretor-geral da Abin participou diretamente das decisões sobre o futuro do comando da PF, uma atribuição do ministro da Justiça, André Luiz Mendonça.

Segundo o Estado apurou, o presidente está preocupado com o avanço do inquérito das "fake news", que pode atingir seus filhos e até mesmo servidores que atuam no chamado "gabinete do ódio". A investigação já identificou empresários bolsonaristas que estariam financiando ataques contra ministros do Supremo nas redes sociais, conforme revelou o Estado.

Há ainda outro inquérito aberto por determinação do ministro Alexandre de Moraes para apurar a organização de atos antidemocráticos, após Bolsonaro participar de protesto em Brasília convocado nas redes sociais com mensagens contra o STF e o Congresso.

Outra apreensão do presidente é a investigação sobre o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) que trata de um esquema de "rachadinha" em seu antigo gabinete, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. O caso foi revelado pelo Estado.

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