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Quem é que manda?

Ou o pedido de desculpas do presidente é puro jogo de cena, ou ele não manda no seu entorno

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 03h00

O episódio do vídeo das hienas seria só mais um mal-entendido grotesco da comunicação virtual bolsonarista não fosse o fato de que esses mal-entendidos não têm nada de acidentais. Desde a posse de Bolsonaro, seu entorno mais ideológico insiste num discurso semi-revolucionário, em que o presidente é pintado como uma figura mítica, dotada de designação divina para combater o “mal” – ora encarnado nas instituições, ou “establishment”, ora na imprensa, ora nos partidos, a depender da conveniência de se eleger um inimigo na ocasião.

Trabalham nisso o gabinete do ódio do Planalto, sob o comando de Filipe G. Martins, os filhos 02 e 03, o ideólogo da Virgínia e os ministros vassalos dessa cantilena ideológica. 

Acontece que, quando o embate se dá com o Supremo Tribunal Federal, o presidente tem de fazer um recuo público. Afinal, o filho 01 está pendurado no guichê da Corte, que com duas liminares de dois dos ministros que a ala antiestablishment mais adora malhar sustou o caso do incômodo (e cada vez mais falastrão) Fabrício Queiroz

Que Bolsonaro peça desculpas pela postagem, mas não impeça o filho Carlos de seguir usando sua conta no Twitter, e logo em seguida Filipe Martins use o próprio perfil para repetir que as instituições são, sim, “hienas” – mantendo assim mobilizada a militância virtual – mostra uma de duas coisas: ou o pedido de desculpas do presidente é puro jogo de cena, ou ele não manda no seu entorno mais próximo. As duas hipóteses são bastante preocupantes.

Discurso da ‘ameaça comunista’ dá lugar a desdém com oposição

Bolsonaro precisa decidir: ou existe uma “ameaça comunista” rondando o continente, como provariam a vitória da esquerda na Argentina e na Bolívia e dos protestos no Chile, ou a esquerda não oferece nenhum risco no Brasil, como ele disse na entrevista ao Estado, dado o tamanho oceânico da corrupção que o PT praticou. A verdade, como sempre em discursos extremos e ideologizados, não está em nenhum dos axiomas: o vetor de continuidade ou de mudança na próxima eleição dependerá dos resultados do governo do próprio Bolsonaro, algo a que ele sempre parece um tanto alheio. 

Saúde de Covas e racha no PSL embolam sucessão

Se já era difícil ler como a divisão de candidaturas de centro e à esquerda e o fim da polarização nacional entre PT e PSDB interfeririam na eleição para a Prefeitura de São Paulo, a descoberta do câncer do prefeito Bruno Covas (PSDB) e o racha fratricida no PSL de Jair Bolsonaro trataram de deixar o quadro da sucessão na capital ainda mais indefinido. 

Aliados louvam a disposição de Covas de enfrentar um longo e difícil tratamento sem se afastar do cargo, mas em privado já manifestam dúvidas quanto a se ele vai querer enfrentar algo tão exaustivo como uma campanha em poucos meses. No campo bolsonarista, a candidatura de Joice Hasselmann, que era considerada forte por sua associação com o presidente e o recall da alta votação que teve para a Câmara, se enfraqueceria muito sem a estrutura e o fundo partidário do PSL. Daí porque a definição de quem ganhará a queda de braço pelo comando da sigla importa para analisar as chances da ex-líder do governo na disputa.

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