Reprodução/Oncologia Brasil
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Quem é Nelson Teich, ex-ministro da Saúde do governo Bolsonaro

O oncologista Nelson Luiz Sperle Teich deixou o cargo menos de um mês após sua nomeação; médico e presidente Bolsonaro divergiram sobre uso da cloroquina

Bruno Nomura, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 16h24
Atualizado 15 de maio de 2020 | 15h00

Menos de um mês após sua nomeação, o oncologista Nelson Teich deixou o comando do Ministério da Saúde do presidente Jair Bolsonaro após divergências sobre a administração da cloroquina, substância que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus. A cloroquina já pode ser utilizada em pacientes internados, mas Bolsonaro defende a mudança de protocolos para incentivar a utilização da substância mesmo em pacientes com sintomas leves. O médico substituiu Luiz Henrique Mandetta, que deixou a pasta após semanas de embates públicos com o presidente e discordava dos mesmos pontos que Teich na condução da pandemia.

Nelson Luiz Sperle Teich é formado em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer e em Ciências e Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido.

Fundou e presidiu o Grupo Clínicas Oncológicas Integradas (COI) entre 1990 e 2018. Foi consultor da área de saúde da campanha de Bolsonaro à Presidência em 2018. Chegou a ser cotado ao Ministério da Saúde à época. Atualmente é sócio da Teich Health Care, uma consultoria de serviços médicos.

O oncologista inicialmente contava com o apoio da classe médica e mantinha boa relação com empresários do setor da saúde.

"Ele tem uma ótima reputação e ouvindo o que ele já falou parece que começou bem. Ele tem um enorme desafio pela frente e sucede um ministro que sempre teve nosso apoio. Todos queremos que ele tenha um desempenho tão bom ou ainda melhor que o do Mandetta. Quando ele enfatizou a importância de continuar baseado em evidencia cientírica e critérios técnicos já responde as expectativas que nós todos temos", disse à época Rubens Belfort Jr, presidente da Academia Nacional de Medicina.

Em um artigo publicado em 3 de abril no LinkedIn, Teich criticava a “polarização” entre a saúde e a economia. “Esse tipo de problema é desastroso porque trata estratégias complementares e sinérgicas como se fossem antagônicas. A situação foi conduzida de uma forma inadequada, como se tivéssemos que fazer escolhas entre pessoas e dinheiro, entre pacientes e empresas, entre o bem e o mal”, escreveu. 

Teich não é defensor do isolamento vertical, em que apenas idosos e pessoas com doenças graves são colocadas em quarentena. O modelo é defendido por Bolsonaro e foi um dos principais fatores de desgaste entre o presidente e o ministro Mandetta, que apostou no isolamento horizontal.

Teich tinha o apoio do ministro da Economia, Paulo Guedes, e dos militares para ser ministro logo no início do mandato. Na ocasião, Bolsonaro acabou optando por Mandetta, que era, na verdade, um perfil mais político. Desde antes de assumir o posto, Teich era visto por colegas médicos como alguém que dificilmente vai se dobrar a decisões de Bolsonaro que não se amparam em critérios técnicos.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre o isolamento vertical?

Nelson Teich publicou três artigos sobre o coronavírus em sua página pessoal no LinkedIn. No texto mais recente, de 2 de abril, o oncologista defende o isolamento horizontal como a “melhor estratégia no momento” no combate à pandemia. 

“Diante da falta de informações detalhadas e completas do comportamento, da morbidade e da letalidade da covid-19, e com a possibilidade do Sistema de Saúde não ser capaz de absorver a demanda crescente de pacientes, a opção pelo isolamento horizontal, onde toda a população que não executa atividades essenciais precisa seguir medidas de distanciamento social, é a melhor estratégia no momento. Além do impacto no cuidado dos pacientes, o isolamento horizontal é uma estratégia que permite ganhar tempo para entender melhor a doença e para implantar medidas que permitam a retomada econômica do país”, escreveu Teich.

Teich vê “fragilidades” no isolamento vertical, modelo defendido por Bolsonaro em que apenas idosos e pessoas com doenças graves ficariam em quarentena. O médico ressalta, no entanto, que nenhum dos modelos seria o ideal e defende um “isolamento estratégico”.

“Estamos falando aqui do uso de testes em massa para covid-19 e de estratégias de rastreamento e monitorização, algo que poderia ser rapidamente feito com o auxílio das operadoras de telefonia celular”, afirmou.

Qual é a opinião de Nelson Teich sobre a cloroquina?

Em um dos textos no LinkedIn, o oncologista menciona a cloroquina como uma esperança no tratamento da doença, mas não se posiciona sobre a forma como a substância deve ser usada.

Em 2016, em entrevista ao site Medscape, Teich criticou a liberação da venda da fosfoetanolamina, que ficou conhecida como a “pílula do câncer”, mas disse que o uso de substâncias sem eficácia comprovada é um direito do paciente.

“É uma decisão política e populista que quebra um processo estruturado de avaliação de medicamentos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: você, como médico, está lá para orientar o paciente. Se ele quer fazer uso da substância é um direito dele. (...) Usar algo que não tem comprovação científica é uma escolha individual”, afirmou o oncologista.

Teich, no entanto, defende que o custo da aquisição de um medicamento sem comprovação científica deve ser arcada pelo paciente.

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