Tony Winston/MS
Tony Winston/MS

Quem é Luana Araújo? Conheça a infectologista que deixou o Ministério da Saúde em 10 dias

Defensora da vacinação em massa, médica prestou depoimento à CPI nesta quarta-feira, 2

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2021 | 21h38

Anunciada em maio como chefe da Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19, a médica Luana Araújo foi informada dez dias depois que sua nomeação não seria concretizada. Nesta quarta-feira, 2, em depoimento à CPI da Covid, a infectologista falou sobre sua experiência no governo. 

Como mostrou o EstadãoLuana é defensora da vacinação em massa e já declarou ser favorável a medidas restritivas e contra o “kit covid”. Em uma entrevista, a médica afirmou que “todos os estudos sérios” demonstram a ineficácia da cloroquina e que a ivermectina é “fruto da arrogância brasileira” e "mal funciona para piolho”. 

Durante uma live com o vereador Rafael Pacheco (Podemos), de Adamantina, sua cidade de origem, ela também criticou o uso de hidroxicloroquina contra a covid-19. Apesar de não ter eficácia comprovada para o tratamento do coronavírus, o remédio tem sido defendido com veemência pelo presidente Jair Bolsonaro

Segundo publicou a Revista Veja, Luana Araújo não aceitou determinações impostas pelo Palácio do Planalto e abriu mão de aceitar o cargo. 

A versão contradiz a fala do ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que logo após o anúncio da saída de Luana negou pressão do Planalto. Sem informar o motivo de Luana ter deixado o cargo, se limitou a dizer que a pasta buscaria por outro nome com "perfil profissional semelhante: técnico e baseado em evidências científicas". 

Poucos dias depois, no entanto, durante audiência da Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, o ministro disse que a doutora era uma "pessoa qualificada” e tinha as condições técnicas para exercer "qualquer função pública", mas não foi nomeada porque além de “validação da técnica”, era necessário “validação política” para nomeação.“Vivemos em um regime presidencialista”, afirmou o ministro. “É necessário que exista validação técnica e que exista também validação política para todos os cargos que pertencem ao núcleo de cargos de confiança do governo, porque senão não há condição do presidente da república implementar as políticas públicas que são necessárias para o enfrentamento da pandemia de covid-19”.

Pianista e ‘superdotada’, médica é defensora do SUS e de medidas restritivas

 

Filha de médico e de professora, Luana dividiu a carreira entre a saúde e a arte. Cantora e pianista de formação clássica, ela relata ter se apresentado em festivais desde a infância e ido estudar música na Áustria aos 15 anos, já com o ensino médio concluído. Era três anos adiantada na escola e a família alegava ser “superdotada”.  

No Linkedin, declara ter feito graduação e residência médica na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de mestrado na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, uma das mais prestigiadas do mundo. Ainda de acordo com o relato na plataforma, ela teria sido a primeira brasileira a receber uma bolsa específica de pós-graduação em saúde pública na instituição.

Recentemente, prestava consultoria para o Banco Mundial, entidade que destinou U$ 2 bilhões para vacinas em países menos desenvolvidos. No seu site, chamado “Des-Infectando!, Infectologia Sem Mistérios”, também diz ter como clientes a Light, a Pet Club, uma clínica veterinária, e a Prefeitura de Nova Mutum, interior de Mato Grosso.

Em entrevista ao professor Josh Sharfstein, da Johns Hopkins, divulgada em fevereiro, Luana mostrou-se defensora do Sistema Único de Saúde (SUS) e, sem citar nomes, criticou a “politização” de medidas de combate à covid. Segundo analisou, a precariedade da educação deixa as pessoas vulneráveis à desinformação no País.

“É fácil manipular a população”, disse, em inglês. “No momento em que a pandemia virou uma questão política, todo mundo começou a lutar pelas suas próprias mentiras e não pensando como uma sociedade.”

No seu site, a médica também já publicou texto defendendo o isolamento social, medida que é alvo de uma série de contestações de Bolsonaro. “Tem sido difícil conviver com as dores físicas e emocionais causadas pela doença, a perda de pessoas queridas – são mais de 1 milhão e oitocentas mil mortes pelo mundo, as medidas restritivas de controle de transmissão (as únicas eficazes nessa luta) e os efeitos econômicos da sua adoção”, escreveu há cinco meses. Hoje, o total de vítimas já supera 3,3 milhões. 

Em outro artigo, em colaboração para o Covid-19 Brasil, plataforma mantida por cientistas independentes e voluntários, Luana defendeu que medidas de restrições são eficazes contra a pandemia. “Vários modelos publicados até o momento⁠, que estimam a transmissibilidade do vírus, mostraram que as medidas de isolamento horizontal impactaram esse número. Ou seja: ele atinge a doença. Sem dúvida. Tem efeito epidemiológico.”

A cientista, no entanto, pondera que é preciso considerar aspectos sociais para estabelecer qual o modelo seria mais adequado. “O Brasil e outros países de baixo e médio desenvolvimento socioeconômico, dada a proporção de informalidade das suas economias, tendem a sofrer muito mais as repercussões deletérias do isolamento. Um remédio amargo, difícil de engolir, com efeitos colaterais potencialmente gravíssimos”, escreveu.

“Na prática, essas soluções alternativas recaem sobre outras variáveis ainda mais complicadas: poder e vontade política, apoio popular, resultados econômicos precoces, resposta pandêmica adequada, dados científicos atualizados, liderança e coragem, muita coragem para implementar uma intervenção inédita. Não é nada simples ou fácil."

Mudança no calendário

Antes, estava prevista para esta quarta uma audiência pública para ouvir médicos e pesquisadores contra e a favor do uso de drogas como a cloroquina no chamado tratamento precoce contra a covid-19. A convocação de Luana foi requerida pelos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Humberto Costa (PT-PE) logo depois do anúncio de cancelamento da nomeação. 

A mudança na pauta não agradou aos membros governistas do colegiado. O senador Marcos Rogério (DEM-RO), reclamou também da falta de "previsibilidade" nos trabalhos da comissão e das "reiteradas" mudanças de pauta.

 

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