Capítulo 13

Queiroz, o homem-cometa, sobrevoa os Bolsonaros

Áudios surgidos em meio à crise do PSL relembram o governo da existência do ex-assessor; ele vem e vai ao sabor do tempo da política e ainda é um espectro a rondar o bolsonarismo

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 16h20

Caro leitor, 

Um problema de dimensões astronômicas ronda o bolsonarismo e seu governo. Essa advertência vem de  Fabrício José Carlos de Queiroz, ex-assessor do hoje senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ). Investigado pela suposta prática de “rachadinha” na Assembleia do Rio, este personagem da atual política nacional, em áudio vazado na imprensa, mostrou inquietação.

Declarou-se preocupado com a dimensão do petardo que, segundo ele, o MP fluminense estaria, com suas investigações, preparando para “enterrar” no grupo ora no poder. “Do tamanho de um cometa”, definiu. 

Cometas são corpos celestes dotados de um rastro de gelo que forma uma longa e luminosa cauda. Aparecem de tempos em tempos, como o Halley, que nos visita a cada 75 anos. Queiroz não chega a tanto - some por períodos muito mais curtos, aparece quando lhe convém. Irregular, seu tempo é o da política, diferente do cronológico.

Desde o fim de 2018, quando ganhou espaço na imprensa como o assessor de Flávio na Alerj que recebia depósitos da maior parte dos salários de colegas, bancou o vaga-lume. Faltou a quatro depoimentos no Ministério Público, alegando problemas de saúde, e mandou declaração por escrito. Evitou, assim, perguntas dos promotores. 

Ele reapareceu, porém, em um vídeo, dançando no Hospital Albert Einstein, onde se internara para tratar de um câncer Ee afirmou ter pago em dinheiro vivo a cirurgia a que se submeteu. Submergiu novamente, a ponto de a frase “Cadê o Queiroz?” ter virado divisa da oposição. Desmantelou-a, ao ressurgir no mesmo Einstein, em tratamento. Desapareceu de novo, agora ressurge nos episódios dos áudios.

No primeiro, demonstrava poder na negociação de cargos no Congresso. Alguns, diz, pagam “20 continho de salários" - e mais de cem seriam controlados pelos Bolsonaros no Congresso. No outro caso, demonstrava medo do cometa a caminho e reclamava de abandono. 

Queiroz retorna em momento crítico para o partido do presidente. O PSL está rachado. De um lado, estão os seguidores do presidente da legenda, Luciano Bivar. Do outro, perfilam-se os adeptos do presidente Jair Bolsonaro - amigo de Queiroz dos tempos de Exército, seu padrinho na indicação para assessorar Flávio. A disputa teve rebelião do antigo líder do partido na Câmara, deputado Delegado Waldir (GO), e degenerou em luta pela liderança da agremiação na Câmara.


A briga envolveu o filho "zero três" de Bolsonaro, Eduardo. Este teve de desistir da embaixada em Washington. Era um sonho cada vez mais distante, ante a resistência no Senado. Teve de trocá-lo pelo cargo de líder do partido na Câmara, mesmo assim após embates envolvendo listas de apoio.

Trocou o filé mignon prometido pelo pai - servido a um diplomata de carreira - por uma corriqueira carne seca. Mas a disputa se espalhou. Envolveu a ex-líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, que virou alvo de ataques na internet. Chegou à CPI das Fake News, convertida em novo campo de batalha para governistas e ex-governistas. O clima atingiu até o perfil do presidente no Twitter. Lá, em vídeo o presidente foi comparado a um leão cercado de hienas - o STF, a imprensa e o PSL, entre outros. Diante da reação forte do decano do Supremo, ministro Celso de Mello, Bolsonaro, em entrevista ao Estado, pediu desculpas

Não se engane, amigo leitor. O timing deste breve reaparecimento de Queiroz parece diretamente ligado ao ambiente de crise que tomou o PSL. Fragiliza controles e excita ambições. Nele, o sorridente ex-assessor tende a reaparecer, como um astro que vai e vem. Sim, o verdadeiro cometa é ele, Queiroz. Não demora, está aí de novo, com seu sorriso, sua linguagem sem cerimônia - e seu potencial destruidor para o bolsonarismo.

Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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