Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Queiroga muda versão sobre demissão de Luana e diz que infectologista não traria 'conciliação'

Médica permaneceu 10 dias em posto no ministério da Saúde até ser avisada de que sua nomeação não seria efetivada

Julia Affonso e Luci Ribeiro, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 10h45

Brasília - O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, mudou, nesta terça-feira, 8, a versão sobre a saída da infectologista Luana Araújo de sua equipe. Após apontar que o motivo havia sido falta de "validação política" para a nomeação, o ministro disse, hoje, que não efetivou a infectologista na recém-criada Secretaria de Combate à Covid-19 porque o nome dela não traria "a conciliação entre os médicos" que ele pretende obter em sua gestão. A médica foi anunciada para o cargo, no início de maio, e trabalhou por dez dias no ministério, mas foi demitida antes de ser oficialmente nomeada.

No dia 26 de maio, em audiência na Câmara dos Deputados, o ministro sugeriu que a nomeação não ocorreu por questões políticas. “É necessário que exista validação técnica e que exista também validação política para todos os cargos que pertencem ao núcleo de cargos de confiança do governo, porque senão não há condição do presidente da República implementar as políticas públicas que são necessárias para o enfrentamento da pandemia de covid-19”, afirmou Queiroga na ocasião, ao justificar a saída da Luana de sua equipe. “Vivemos em um regime presidencialista.”

Nesta terça-feira, 8, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, Queiroga afirmou que a "validação política" a que se referiu seria da classe médica e não partidária. "Questão política não é questão política-partidária, é questão política da própria classe médica. Não é um nome (o de Luana) que harmoniza", disse aos senadores.

A médica é defensora da ampla vacinação e contrária ao chamado tratamento precoce contra a covid-19, com o uso de medicamentos como a cloroquina, cuja indicação é preconizada pelo presidente da República. Em depoimento prestado à CPI, na semana passada, Luana afirmou que "qualquer pessoa", independentemente de cargo ou posição social, que defende métodos sem comprovação científica para o tratamento de doenças, tem "responsabilidade sobre o que acontece depois". A médica também reforçou que a autonomia médica, apesar de fazer parte da prática, "não é licença para experimentação". 

Na ocasião, questionada sobre o motivo de seu nome não ter sido efetivado, Luana disse não saber o motivo, mas admitiu que "seu nome não passaria pela Casa Civil", órgão que avalia todas as nomeações nos primeiros escalões do governo federal e é comandado pelo general Luiz Eduardo Ramos, articulador político de Bolsonaro.

Hoje, Queiroga declarou que Luana Araújo era uma "colaboradora eventual" do Ministério da Saúde e que ele identificou na médica "qualidades técnicas que podiam ser úteis". Segundo ele, não houve "qualquer tipo de restrição" ao nome da médica pela Casa Civil ou pela Secretaria de Governo.

Queiroga declarou que o nome da médica passou a sofrer resistência por causa de temas tratados na CPI. "Num ato discricionário do ministro, resolvi não efetivar a sua nomeação", disse o ministro aos senadores.

Antes do depoimento na CPI, em entrevista em frente ao Ministério da Saúde, Queiroga já havia isentado Bolsonaro sobre a decisão de demitir a médica. "A doutora Luana não foi nomeada. Isso é uma incumbência, uma atribuição do ministro da Saúde, que tem a discricionariedade técnica para escolher a sua equipe. A despeito dela ser uma pessoa muito qualificada, de ter contribuído aqui conosco, ajudando, por exemplo, no protocolo da testagem, nós entendemos que neste momento o nome dela não seria o melhor nome para promover a conciliação entre os médicos que eu quero promover", afirmou o ministro.

Questionado a respeito da declaração anterior sobre a falta de "validação política" ter impedido a nomeação de Luana, Queiroga destacou, então, que se referia à política médica, não partidária. "Precisamos arbitrar esse processo com pessoas que tenham uma certa isenção em relação aos temas que são ali discutidos. É óbvio que vivemos no presidencialismo, que o presidente é o chefe do Estado e o chefe da Nação, mas eu tenho a confiança do presidente da República para conduzir essa situação sanitária complexa", afirmou o ministro.

Senadores reagiram às declarações de Queiroga. A senadora Eliziane Gama (Cidadania-SE) afirmou que "alguém mentiu": "Ou o senhor ou ela".

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), perguntou a Queiroga se a capacidade técnica da médica atrapalhou a nomeação."Não", limitou-se a afirmar o ministro. 

Para o presidente da Comissão, senador Omar Aziz (PSD-AM), o ministro estava tentando arranjar uma justificativa para tirar Luana de sua equipe: "A verdade é o seguinte. O senhor mesmo disse: é um regime presidencialista. Chegou na Casa Civil, foram olhar lá os vídeos, 'ela não concorda com a doutora Mayra (Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde que defende tratar covid com cloroquina) e eu opto a ficar com a dra. Mayra e não com a dra. Luana'. A doutora Mayra defende o tratamento inicial e a outra doutora não defende isso. É só falar, isso aí não vai mudar muita coisa na sua história junto ao Ministério, que espero que seja vitoriosa. Mas não dá para achar também que todo mundo aqui é doido ou não prestou atenção no que o senhor falou".

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) afirmou, no Twitter, que "dá tristeza" ver Queiroga "com mais de 30 anos de carreira na medicina se sujeitar a mentir desse jeito para se agarrar a um cargo de ministro". 

"Queiroga tenta assumir a negativa de nomeação da Dra Luana como opção sua. Ele mesmo apontou para o presidente em declaração anterior", postou o senador.

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