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Eliane Cantanhêde
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Queimando a largada

Estreia do governo mostra confusão, desinformação e um desmentido atrás do outro

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2019 | 05h00

A estreia do governo Jair Bolsonaro produziu menos decisões e metas do que recuos e confusões. A sociedade, o mercado e o próprio governo não sabem até agora qual será a proposta para a Previdência, nem mesmo as idades mínimas para homens e mulheres e o regime para as três Forças. Mas todo mundo descobriu que o presidente fala sem pensar e estar devidamente informado, os ministros são obrigados a desmenti-lo e está uma confusão.

Dificuldades são comuns em qualquer começo, especialmente num governo que traz tantas mudanças, mas é além do razoável que a lista de equívocos e desmentidos cresça todo dia e seja maior do que a de projetos e metas. Os ministros parecem falar muito, mas dizer pouco. E alguns parecem ter como função desmentir os erros do presidente.

Mesmo a reunião do Conselho de Governo, que inclui o presidente, o vice e os 22 ministros, foi decepcionante. A expectativa era de que, no final, algum dos ministros (na falta de um porta-voz) desse uma luz sobre as prioridades em cada área: Educação, Saúde... Mas tudo o que anunciaram foi um projeto – que não é meta de governo – para flexibilizar a posse de armas, o que, aliás, pode aumentar o já alto número de mortes por armas de fogo.

Sem que o governo diga exatamente o que pretende, são inacreditáveis os erros da largada. Bolsonaro fala em IOF, IR e idade mínima para a Previdência e é desmentido pelo primeiro e segundo escalões, gerando mal-estar entre as equipes política e econômica. Acena com Base Militar dos EUA em solo pátrio e deixa os militares em choque, tentando resumir tudo a um “auê”.

Bolsonaro também suspendeu a reforma agrária, depois suspendeu a suspensão; jogou no ar restrições ao acordo Boeing-Embraer e só depois foi discutir o assunto com os ministros; o chanceler postou no Twitter que o presidente da Apex tinha pedido demissão, mas ele foi trabalhar normalmente; um vídeo antigo da ministra da Família contra a Teoria da Evolução provocou crítica até do colega de Ciência e Tecnologia.

Enquanto isso, o filho do presidente, seu ex-assessor Fabrício Queiroz e a família deste se recusam a prestar esclarecimentos ao Ministério Público e o filho do vice-presidente triplica salário em banco público. Sem falar no chefe da Casa Civil, que não explica por que as notas dos gastos de seu gabinete de deputado vieram de uma única empresa, da qual era o único cliente.

Nesta terceira semana, que o trem entre nos trilhos, Bolsonaro passe a falar com conhecimento do que está falando, os ministros comecem a anunciar seus planos e metas, cessem as confusões e o governo assuma alguma normalidade. Já está mais do que na hora.

Mães Dinah

Foi ao ar ontem na BBC World News o primeiro de três episódios sobre o Brasil de junho de 2013 a Jair Bolsonaro. Repórter, entrevistador e produtor executivo da série, intitulada “O que aconteceu com o Brasil”, o jornalista Kennedy Alencar ouviu as expectativas de quatro ex-presidentes sobre Bolsonaro. As respostas:

Temer: “Ou você vive numa democracia, e democracia significa convivência harmônica do Executivo, Legislativo e Judiciário, ou você vai para uma ditadura. Eu acho que ele vai preservar a democracia”.

Dilma: “Eu espero que seja possível a gente ter um governo de extrema-direita sem comprometer a democracia. Eu espero, mas nós estamos vivendo um momento que eu acho muito difícil internacionalmente para a democracia”.

Lula: Vamos ver para onde Bolsonaro irá levar o País. A razão da vitória dele é sabida por quem conhece história: quando se nega a política, o que vem depois é sempre pior”.

FHC: “Eu acho que ele simplifica tudo e pensa que a força resolve. Esse é o maior medo que eu tenho, é dele ser um incapaz de governar”.

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