Queda de general expõe as fraturas no legado olímpico

Depois de esquecer general e transformar palhaço em porta-voz, Bolsonaro demite um dos líderes da confraria dos calções-pretos

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 13h21

Ernst Jünger escreveu o mais vivo e terrível relato de um soldado de linha de frente da Primeira Guerra Mundial. Para muitos, esse tenente alemão das tropas de assalto é a corporificação do militarismo germânico e da exaltação da força, o reverso de Erich Maria Remarque e seu Nada de Novo no Front Ocidental.

Jünger era um ultranacionalista, mas não aderiu ao nazismo. Ferido mais de uma dúzia de vezes, seu relato transpira o acaso da sobrevivência em meio às Tempestades de Aço, título de seu livro sobre o combate. Em um dos últimos episódios da guerra, o tenente se descreve na ofensiva alemã de 1918. Seu grupo de assalto toma uma trincheira inglesa, cujos defensores fogem em debandada.

“O sucesso produz um efeito mágico. Ainda que há muito não fosse possível falar em formações regulares que se pudessem comandar, só existia para cada um dos homens uma única direção: avante!” E lá se iam os alemães  – o tenente entre eles – à caça do inimigo, apesar do risco de alcançar a barragem rolante de sua própria artilharia, que lhes abria o caminho.

O relato de Jünger vê mágica no caos do combate. Esse encanto parece ter tomado conta, após a vitória nas eleições, dos generais que embarcaram no governo de Jair Bolsonaro. Todos tiveram de descobrir  – cada um ao seu jeito  – a presença do acaso e da sorte na batalha. Foi só 11 meses depois de nomeado para a Secretaria de Esportes do governo federal que o general Décio Brasil foi lembrado de que estilhaços também podem se esgueirar pelos gabinetes do poder. O presidente o exonerou do cargo no dia 27.

Em 2015, Brasil encontrou Bolsonaro, então deputado federal, na Escola de Educação Física do Exército (EsEFEx), na Urca, no Rio. O parlamentar sentou em sua mesa em um dos churrascos da confraria do calção preto  – também chamada de Exército da Urca. Os homens da Educação Física da Força são uma das mais tradicionais confrarias verde-oliva. Há outras, como a das Forças Especiais, dos paraquedistas, do Exército do Sul etc. Brasil era o então comandante do Centro de Capacitação Física do Exército (CCFEx), também na Urca.

Bolsonaro se formou na EsEFEx em 1980. É calção-preto como Augusto Heleno. Mas foi fazer carreira na Brigada Paraquedista. Brasil seguiu na Educação Física. Foi professor nas escolas militares e comandou a área. Ao ser demitido, o general disse que, talvez, tivesse desagradado ao presidente. Afirmou ter resistido a atender um pedido de Bolsonaro: nomear um amigo de Flávio Bolsonaro como chefe do Escritório de Governança do Legado Olímpico, no Rio. No fim, admitiu que o presidente não lhe deve satisfações, pois o cargo é dele e ele nomeia quem quiser.

A queda do general Brasil acompanha os problemas do mais ambicioso dos projetos do Exército da Urca: o legado olímpico. Conta um coronel que há mais de dez anos, quando se iniciou o ciclo olímpico brasileiro, um grupo de oficiais da CCFEx resolveu trazer para o Exército a responsabilidade de “influir diretamente na preparação dos atletas olímpicos do País”. Décio Brasil era um deles.

Contrataram atletas civis de alto rendimento, “colocando-os como tenentes, sargentos ou cabos temporários”. “Na prática, servia como um "bolsa atleta". Já que esses jovens tinham como única obrigação "militar" treinar seus esportes usando para isso toda a infraestrutura disponível do CCFEx.” O coronel conta que os primeiros testes foram o PAN de 2007, no Rio, e os Jogos Militares de 2011. “O País, de modo inédito, venceu os jogos, graças a esses atletas já consagrados, ‘pintados’ de tenentes, sargentos e cabos.”

Marinha e Aeronáutica gostaram do que viram e se juntaram ao projeto, logo encampado pelo Alto Comando do Exército. Havia razões para isso: a propaganda para a instituição no pódio cada vez que um atleta presta continência à bandeira; o recebimento de verbas extras para melhorar o CCFEx; o estímulo à prática de espoes nas Forças Armadas e o protagonismo do Exército no gerenciamento do legado olímpico.

“Mostraria que militar consegue gerenciar complexas estruturas públicas.” Mas também serviria para impulsionar vários integrantes da confraria, com novos contatos no mundo civil e com posições de prestígio após a passagem para reserva. “Hoje, o legado olímpico se transformou em um abacaxi, tanto físico, representado pelas instalações semi-abandonadas, quanto simbólico, de manter o programa dos atletas de alto rendimento”, diz o coronel.

Os calções-pretos, que se “sentiam donos do projeto olímpico”, avançaram para o governo como a infantaria de Jünger.  Mas a confraria viu a mágica de um governo se transformar no caos do combate. E o general Brasil acabou atingido pela barragem da artilharia de Bolsonaro. Seus colegas  – conclui o coronel – testemunharam o chefe ser demitido pelo homem que tanto apoiaram na campanha eleitoral porque o presidente “desconhece princípios básicos de chefia e liderança e de administração pública”.

O amigo do filho de Bolsonaro era mais importante do que o general calção-preto. “O que esperar de um presidente que trocou um general 3 estrelas (Rêgo Barros) por um palhaço?”, perguntou o coronel, referindo-se ao fato de Bolsonaro usar o comediante Carioca para responder a perguntas dos jornalistas sobre o PIB de 2019, em vez de delegar a tarefa a Rêgo Barros, o porta-voz do Planalto. Imitando o presidente, Carioca distribuiu bananas à imprensa. No Planalto é assim: quem questiona ganha bananas. Não importa se jornalista ou general.

Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

Bolsonaro e os Militares

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.