Queda de Collor teve 'caráter pedagógico', diz cientista

Para Carlos Melo, sucessores aprenderam que 'moderação e canja não fazem mal a ninguém'

Alexandre Caverni, Reuters

29 de setembro de 2007 | 13h04

Quinze anos depois é possível olhar com mais frieza para a queda de Fernando Collor de Mello para entender como se chegou àquele desfecho e as lições que foram aprendidas pelos seus sucessores.   No dia 29 de setembro de 1992, a Câmara dos Deputados autorizou, em votação esmagadora, a abertura do processo de impeachment contra Collor. Três dias depois, ele se afastava do cargo. Passados três meses, tinha o mandato cassado e seus direitos políticos suspensos por oito anos.   Para o cientista político Carlos Melo, é preciso reconhecer as qualidades e circunstâncias que levaram Collor ao posto mais alto do país, embalado por mais de 35 milhões de votos, para compreender os erros que levaram à sua queda.     "Ele tinha um perfeito sentido do timing jornalístico e, portanto, político", disse Melo, autor do livro "Collor - O Ator e Suas Circunstâncias". Tinha também habilidade de comunicação com o povo, o tino para se apropriar do discurso da modernidade econômica - que, segundo Melo, pedia há tempos por um líder que o encampasse - e aquilo que o pensador florentino Maquiavel chamava de fortuna, ou simplesmente sorte.     Mas a vitória numa das mais disputadas eleições presidenciais do país, com políticos que tinham mais envergadura que ele, parece ter dado a Collor uma idéia de invulnerabilidade que o levou a um curso de ação que acabou desaguando em sua cassação.   "Como ele ganhou a eleição sozinho, ele chega a acreditar que é capaz de governar sozinho, que não precisa de ninguém. Ele abre mão de alianças, de acordos", explicou Melo, que é professor do Ibmec-SP. Na eleição de 1989, Collor, com seu recém-fundado Partido da Reconstrução Nacional (PRN), deixara para trás no primeiro turno, entre outros, políticos como Ulysses Guimarães, um dos principais líderes da oposição, com o seu PMDB, ao regime militar que dominara o país por duas décadas; Leonel Brizola (PDT), herdeiro do varguismo e uma das últimas estrelas do período pré-golpe de 1964; e Mário Covas, do também novato PSDB, mas com um robusto currículo de luta pela democracia.   No segundo turno, foi a vez de superar o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputava a primeira de suas cinco eleições presidenciais. "A forma estrondosa como ele ganha a eleição parece que desperta um sentimento de invulnerabilidade fantástica, ele se acha capaz de enfrentar a tudo e a todos simultaneamente." E por conta disso, na avaliação de Melo, comete o erro de abrir várias frentes de conflitos.     "Na política você precisa ter um pouco de ousadia para investir num processo de transformações econômicas, políticas e sociais, mas também moderação, para você não comprar todos os conflitos de uma vez e quebrar a cara", explicou Melo.    Para ele, ao fazer o confisco temporário da poupança e de outros ativos para combater a inflação, Collor provocou a classe média. Ao abrir a economia, gerou uma série de conflitos com boa parte da classe empresarial que havia dado ativo e, em alguns casos, entusiasmado apoio durante a campanha eleitoral contra Lula e Brizola. Ao invadir as dependências do jornal Folha de S.Paulo, reforçou temores quanto a possíveis tendências autoritárias. Em outra frente, montou o que Melo classifica como "um governo medíocre", e sem ter uma base negociada no Congresso.   Além disso, acrescenta o cientista político, o tempo foi passando e Collor não "entrega" o que havia prometido durante a campanha. "Não entregou nem a estabilidade econômica, após dizer que ia acabar com a inflação, nem acabou com a corrupção, com casos começando a brotar em seu governo."   "Aí não interessa se as ações que ele está tomando estão certas ou erradas. Na verdade, ele está com várias frentes de conflito simultâneas, e não importa mais onde ele tem razão e onde deixa de ter", argumentou Melo.   Neste cenário, com as denúncias de tráfico de influência em seu governo envolvendo seu tesoureiro de campanha, Paulo Cesar Farias, e com a crescente perda de apoio na opinião pública, especialmente na classe média, Collor começa a sentir os efeitos do desdém no tratamento dado ao Congresso no início de seu mandato. "À medida que ele começa a se desgastar e não fecha alianças, o Congresso passa a dar o troco", disse Melo. O troco final viria primeiro em setembro de 1992, na Câmara, e em dezembro no Senado.     FHC e Lula     Escândalos como o mensalão ou as denúncias contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para se restringir aos casos mais recentes, podem dar a sensação de que todo o processo que culminou com o impeachment de Collor não serviu para nada. Melo tem uma leitura diferente.   "O diagnóstico que se fez na época em relação à queda do Collor é que as nossas instituições estavam amadurecidas... ou seja, uma idéia de que foram as instituições que o derrubaram", diz Melo, "A verdade é que o que houve ali foi uma série de erros que o próprio ator cometeu."   Mas ainda assim "o impeachment resultou num processo pedagógico". "Os governantes, depois do Collor, sabem que moderação e canja não fazem mal a ninguém", argumentou Mello, acrescentando que, talvez, eles tenham até exagerado na dose. "Tanto o Lula quanto o Fernando Henrique (Cardoso) aprenderam e excederam na lição porque adotaram uma postura de não querer comprar conflito nenhum, de ir para a quase total conciliação, quer seja com o sistema político, quer seja com as forças vindas da sociedade."     Para Melo, o estudo atento da queda de Collor também serve para mostrar que "não é fácil derrubar um presidente"."É possível derrubar dentro de certas circunstâncias, que nem o governo Fernando Henrique nem o governo Lula permitiram que acontecesse."     Melo aponta o exemplo de Lula. No auge da crise originada com o escândalo do mensalão, já havia "entregado" estabilidade e políticas sociais (especialmente o Bolsa Família), importantes promessas de campanha. Isso sem mencionar outros fatores, como base no Congresso e apoio de setores organizados da sociedade.   Apesar de condenado politicamente pelo Congresso, Collor foi inocentado da acusação de corrupção passiva pelo Supremo Tribunal Federal, em 1994. No ano passado foi eleito senador por Alagoas.

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