Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Queda de Araújo mudará forma, mas não conteúdo da política externa bolsonarista; leia análise

Brasil passará menos vergonha, mas quem espera uma guinada relevante na estratégia internacional do Brasil provavelmente se frustrará, diz professor da FGV

Oliver Stuenkel*, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 13h10
Atualizado 30 de março de 2021 | 12h09

Não são poucos os diplomatas que já tinham uma garrafa de champanhe na geladeira, prontos para brindar ao fim de um dos capítulos mais infames da política externa nacional. Hoje, depois de pouco mais de dois anos como ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, seguidor das teses conspiratórias de Olavo de Carvalho, deixou o cargo. Carlos França, seu sucessor, será mais será mais hábil em mobilizar o Itamaraty para servir de escudo e mitigar, em parte, o impacto nefasto da retórica do presidente Bolsonaro na reputação do Brasil no exterior.

Porém, o próximo chanceler terá que lutar somente com uma das mãos. Desde 2019, Jair e Eduardo Bolsonaro determinam a política externa brasileira, e o chanceler apenas a executa. Essa divisão de trabalho dificilmente mudará. O Brasil passará menos vergonha, mas quem espera uma guinada relevante na estratégia internacional do Brasil provavelmente se frustrará. 

Afinal, enquanto Araújo é, sem dúvida, um dos principais autores do atual isolamento diplomático do Brasil, este se deve mais ainda à política bolsonarista em geral, desde sua postura negacionista em relação à pandemia de covid-19 e o aparente descaso com o desmatamento da Amazônia até o desmonte do Ibama e os ataques contra jornais, a presença crescente de militares no governo e investidas contra praticamente todos os tradicionais aliados do Brasil, incluindo China, França, Argentina e Estados Unidos. Nem o melhor cozinheiro do mundo pode fazer um bom prato com ingredientes estragados. Mas, com muita destreza, conseguirá disfarçar e, até certo ponto, tornar a refeição minimamente palatável.

O novo chanceler Carlos França terá vários pontos a seu favor. Primeiro, em comparação a Araújo, praticamente qualquer sucessor deverá ser visto como menos radical e mais competente. Segundo, existe pelo menos alguma chance de que Bolsonaro, pela primeira vez diante de uma oposição real, queira moderar algumas de suas posturas mais radicais – mesmo se o conjunto da obra continuar ruim, até modestos avanços permitirão ao novo chanceler promover, na interlocução com governos estrangeiros, a narrativa de um Bolsonaro mais maduro. Com a exceção dos líderes da Hungria e da Polônia, o mundo torce por essa moderação. Vale lembrar que, até pouco mais de dois anos atrás, o Brasil tinha relações construtivas com praticamente todos os países do mundo.

De qualquer forma, Carlos França assume enorme risco: afinal, mesmo se Bolsonaro abrandar seu discurso, o novo chanceler se verá obrigado a frequentemente defender o indefensável e terá seu nome associado a um governo hoje visto como uma ameaça à saúde global. Será possível conter alguns danos, mas é preciso ser realista: a verdadeira recuperação das relações do Brasil com o resto do mundo só virá quando Bolsonaro deixar a Presidência da República.

*Oliver Stuenkel é coordenador do programa de pós-graduação de relações internacionais da FGV-SP

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