Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Que política as crianças estão aprendendo?

Com a radicalização do debate, educadores apontam caminhos para tentar evitar que pequenos tenham uma visão distorcida da democracia

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2016 | 18h09

Tem início uma aula de inglês para crianças de 8 anos. A professora propõe um jogo para ensinar números. Tudo vai bem até o twelve. No número seguinte, percebe-se um burburinho na classe. Normal, o “th” sempre foi um problema entre os iniciantes no idioma. A teacher tenta acalmá-los e explica que a pronúncia do thirteen é... “Dilma ladrona”, grita uma aluna de 8 anos. “O 13 é um número de ladrão. Eu odeio o 13”, diz a garota, aos prantos.

Hora do recreio. A meninada entre 8 e 12 anos está no pátio. A maioria traz lanche de casa, coisas básicas como misto frio, suco de laranja e... “Coxinha, coxinha, meu pai disse que você é um coxinha”, aponta um garoto de 10 anos para outro coleguinha. Logo, as professoras intervêm, pedem calma à turma. Tarde demais. O coro de coxinha fez o menino chorar.

As duas histórias são reais e envolvem crianças novas demais para compreenderem todas as nuances do “pique esconde” partidário. Ainda assim, os pequenos estão absorvendo o calor desse embate militante – e trazendo para a realidade deles os personagens do mundo desencantado da política nacional. “Acho que só o caso Nardoni teve uma repercussão tão grande entre as crianças”, diz a coordenadora pedagógica da Escola Viva, Daniela Girotto, lembrando o caso da morte da menina Isabela, crime pelo qual foram condenados o pai e a madrasta da criança.

Na última semana, a relação dos pequenos com a política ganhou força porque o desenho feito por uma criança de 4 anos, que representava a morte da presidente, foi compartilhado nas redes sociais pelo próprio pai, que se dizia “orgulhoso” pelo talento artístico do pimpolho.

“Esse caso reflete a reprodução de uma ideologia de um adulto. Os parentes do menino devem ter se expressado dessa maneira perto dele. Então, a criança toma como natural matar um político. O que eu me pergunto é se isso não abre precedentes para essa criança entender que matar, roubar ou usurpar do outro pode ser relativo ou normal”, diz a psicóloga infantil Patrícia Cypriano. “A melhor forma de evitar que o clima de ódio se espalhe para as crianças seria não ter o ódio. Não há como evitar algo que já está escancarado, que tem sido divulgado maciçamente e que as famílias estão alimentando. O ideal seria não expressar opiniões tão inflamadas e carregadas de julgamentos perto dos pequenos.”

Inegável que os desdobramentos do embate político tragam elementos irresistíveis para as crianças. “Meu filho quis ir nas duas manifestações (pró e contra o governo) porque disse tinha amigos nas duas, gente pintada nas ruas e um clima que pra ele era só de festa”, disse a publicitária Renata Cordeiro, de 40 anos, mãe de um menino de 9.

Com o administrador de empresas Alfredo Lino, de 41 anos, o ponto é que a filha de 6 quer bater panelas na janela quase todas as noites. “Ela não sabe nada sobre os motivos, mas acha divertido bater panelas. Já tive problemas com meus vizinhos por causa disso. Minha filha, juro, não é nem coxinha, nem petralha”, brinca.

Esclarecimento. A psicóloga infantil Daniella Freixo afirma que as crianças podem ser afetadas de acordo com a consciência de cada família, mas não precisam ser poupadas da realidade. “Esclarecer para as crianças as situações de acordo com as crenças familiares frente às situações políticas é o melhor caminho”, diz. “As crianças podem aproveitar esse movimento e aprender na prática, no exercício da cidadania, da democracia. Quando recebem informações de modo simplificado, elas também conseguem compreender que todo esse povo nas ruas está em busca de que as coisas funcionem corretamente.”

A empresária Luana Torres, de 37 anos, se questiona como “aproveitar esse momento”. Mãe de um menino de 6 anos, ela conta que o filho foi abordado no prédio porque estava de vermelho. “Um garoto, com a mesma idade do meu filho, cuspiu nele no playground. Quando fui conversar, disse que estava cuspindo porque a cor vermelha era malvada.”

A editora Thaisa Burani, responsável pela coleção Livros Para o Amanhã (Selo Boitatá – Ed. Boitempo), que fala de política para crianças a partir de 8 anos, diz o que não se deve buscar quando o assunto é debate político e crianças. “Não podemos ser esquemáticos, dogmáticos, totalizantes, muito menos nos aproveitar da condição adulta para impor valores unilaterais às crianças”.

Para Thaisa, os pais precisam entender que crianças aprendem, principalmente, com exemplos. “Não adianta dizer pra ela que é preciso respeitar os outros, mas na hora do telejornal se exaltar e começar a xingar os políticos em frente à TV”, diz. “Ao fazer isso os pais transmitem insegurança, raiva e desesperança, e desmentem qualquer discurso bonito feito antes.”

Dois lados. A reportagem acompanhou uma aula na Escola Viva. O professor Eduardo Parise Alves, de 42 anos, tentava fazer com que os alunos entre 7 e 11 anos entendessem que qualquer notícia tem pelo menos dois lados ou múltiplas interpretações. Nos primeiros 15 minutos, a criançada ficou solta, falando o que quisesse. A experiência chegou a um contexto inusitado. “Você convidaria o Lula para o seu casamento?”, perguntou uma garota de 9 anos.

O debate seguiu por um tempo até o professor retomar as rédeas da aula. Parise aproveitou para debater o que o repórter poderia escrever sobre a turma. Uma aluna disse: “Se ele falar da primeira meia hora, vai dizer que nossa turma é bagunceira. Se falar da parte final, vai dizer que somos estudiosos e educados”. Outra completou: “Em vez de bagunceiros, ele pode ser legal e escrever que somos ‘criativos’”.

Segundo Parise, o que a escola tenta fazer é tirar do debate político nomes ou preferências partidárias. “A gente tem tentado fazer com que entendam que qualquer questão pode ter vários lados e que tudo merece ser debatido com respeito, entendendo a opinião do outro”, afirma. “De um jeito lúdico, eles podem entender que nem tudo é uma questão de certo ou errado.”

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