Que dama!

Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso deixa seu nome no registro das mulheres que pontuaram no cenário político-institucional brasileiro com um post-scriptum: a primeira-dama que detestava essa designação. O fato de preferir a expressão "dona Ruth" ao hosana embutido no tratamento dispensado às esposas dos mandatários é a síntese de um caráter que a antropologia, área em que se doutorou, assim define: seguros em suas crenças, leais a seus afetos, fiéis à sua palavra, atentos a seu dever. Merecia, sim, o título de grande dama, não pelos altos conhecimentos de antropóloga ou renomada professora, mas pela maneira de seguir à risca o ensinamento das Sagradas Escrituras: "Nenhum ser humano, por mais esforço que faça, é capaz de acrescentar um palmo à sua altura e alterar este pequeno modelo que é o corpo humano." Era uma pessoa que abominava a idéia de incorporar ao restrito e sagrado território privado um centímetro do espaço público, coisa que hoje é trivial no reino dos palácios. O desaparecimento de dona Ruth gera comoção tanto pelo mapa de significados deixado por sua trajetória quanto pela constatação de que sai de cena uma espécime cada vez mais rara nas antecâmaras do poder, dessas que ascendem à própria dignidade, nadando contra as correntes baixas, esforçando-se para não se deixar levar pela mediocridade e sujeira que inundam a esfera política. Quem imaginava queimar a sua imagem na fogueira preparada com um dossiê contendo as contas dos tempos em que seu companheiro Fernando Henrique era o dono das chaves do Palácio do Planalto ficou a ver navios. Os oito anos de Ruth Cardoso no circuito central do poder não mudaram sua percepção sobre a condição da pessoa pública. Impregnava-se da lição: não se transige com a dignidade. Dela não se viu silêncio absoluto nem se ouviu peroração em demasia. Encaixava as idéias no devido compartimento. Ora se percebia a feminista, declarando-se a favor do aborto, ora se distinguia a avó acarinhando os netos. O perfil público ressurgia na imagem de dirigente do Comunidade Solidária, programa de inserção social com portas para sair do paternalismo assistencialista. Sua expressão primava por conceitos elevados, às vezes incompreensíveis a mentes pragmáticas como a de Sérgio Motta, amigo dileto do presidente Fernando Henrique. Diante da constatação de que 1.400 bolsões de pobreza precisavam de forte braço social, o então ministro das Comunicações saiu-se com uma assertiva nada elegante: "Masturbação sociológica." A professora manteve-se determinada a realizar sua obra. Aliás, sempre com altivez a primeira-dama enfrentou as intempéries da vida, superando obstáculos, alguns até de cunho pessoal. Impunha-se o dever de separar o público e o privado. No capítulo da análise social, foi ela uma das primeiras intelectuais a indicar a emergência de um fenômeno que viria a marcar forte presença na contemporaneidade: a organicidade social. Cedeu seu esforço e sua capacidade analítica aos primeiros ensaios, ainda nos anos 70, em defesa de minorias étnicas, do gênero feminino ou em torno da orientação sexual nas escolas. O que mais chama a atenção na trajetória da autora de A Aventura Antropológica é o fato de não ter precisado de holofotes midiáticos para iluminar seus caminhos. Nem mesmo careceu da bengala do marido presidente para se apoiar, diferentemente do que tem ocorrido com a maioria das primeiras-damas de países, como os Estados Unidos, que fazem a festa do Estado-espetáculo. Nas últimas cinco décadas, governantes e políticos ascenderam à posição de superstars, elevados ao Olimpo da cultura de massa. De John Kennedy a George Bush, passando por Bill Clinton, de Charles de Gaulle a Nicolas Sarkozy, passando por François Mitterrand, de Nikita Kruchev a Vladimir Putin, passando pelo extravagante Boris Yeltsin, ou de Juscelino Kubitschek a Luiz Inácio, passando por Fernando Henrique, a trajetória dos mandatários, incluindo peripécias particulares, tem sido invariavelmente fustigada pela mídia. Até o obtuso Idi Amin Dada, que se considerava enviado de Deus para salvar Uganda, ganhou charme cinematográfico. De braço dado com seus maridos poderosos, as mulheres os acompanham no patamar da fama. Agem como coadjuvantes do espetáculo, exibindo charme ou brandindo ações sociais, como Jacqueline Kennedy, Danielle Mitterrand ou Carla Bruni, atual mulher do presidente francês. Outras se esforçam para se manter na penumbra. Lady Bird Johnson detestava a agenda do marido Lyndon, que assumiu a Presidência após o assassinato de Kennedy, a ponto de exclamar: "O político deveria nascer enjeitado e permanecer solteiro." Já Margaret Trudeau, a jovem esposa do então primeiro-ministro do Canadá, Pierre, costumava dizer: "Quero ser algo mais que uma rosa na lapela do meu marido." Sem se valer de sentenças de protesto ou de auto-afirmação, Ruth Cardoso conseguiu ser bem mais que uma rosa no paletó de Fernando Henrique. Iluminou veredas com a energia de suas idéias. Sua passagem pela esfera do poder mostra que a mulher pode exercer o múnus político sem estardalhaço e sem pertencer, necessariamente, aos quadros da representação popular. Não é preciso ser prefeita, deputada ou governadora para que a mulher possa comprovar sua vocação política. É errado imaginar que as mulheres brasileiras, que hoje somam 51,5% dos eleitores, sejam representadas exclusivamente na política por 3 governadoras, 4 senadoras, 46 deputadas federais e 123 deputadas estaduais. Há milhares de mulheres cumprindo alta missão nos mais variados setores da administração pública. Elas fazem, a seu modo, boa política. Como dona Ruth, são elos de uma gigantesca cadeia social, algumas na liderança de movimentos e programas de vulto, outras costurando pequenas peças de tecidos sociais esgarçados. Essa é a herança que a professora Ruth deixa. Herança embalada na simplicidade, que é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos.  * Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político  Nota da Redação: este texto foi originalmente publicado em O Estado de S. Paulo em 29 de Junho de 2008

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