Quando idade e idéias ficam nos extremos

Vita já passou 40 anos na Câmara; Machion só viveu 20

O Estadao de S.Paulo

28 de setembro de 2008 | 00h00

O advogado Brasil Vita, de 86 anos, tem de tempo na Câmara o dobro da idade do estudante Bruno Machion, de 20 anos. Eles são o mais velho e o mais jovem candidatos à Câmara de São Paulo, de acordo com o serviço Vereador Digital, do portal estadão.com.br. A faixa etária em que o serviço mais encontrou candidatos foi a dos 52 anos, mas Vita e Machion estão nos extremos.Candidato do PTB, Vita faz parte da história política de São Paulo. Durante 40 anos seguidos, atuou na Câmara Municipal. Machion é do PSTU e ainda quer fazer história. Seu currículo registra a participação na invasão da reitoria da Universidade de São Paulo (USP) no ano passado.Ele está animado, fala em revolução para "mudar o País". Começou cedo. Aos 17 anos, já liderava manifestações contra a guerra no Iraque e contra a Alca, a Área de Livre Comércio das Américas, defendida pelos Estados Unidos. É contra o presidente americano George Bush. Também é contra o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.Brasil Vita iniciou a carreira em 1959 como vereador. "Comecei tarde", lamenta. "Já tinha 38 anos." Lançou-se pelo PST, mas logo mudou para a Arena, que apoiava o regime militar. Em 1979 foi para o PDS, depois para o PTB, em seguida migrou para o PPB de Paulo Maluf. No último mandato, apoiou o ex-prefeito Celso Pitta. Em 1973, na condição de presidente da Câmara, chegou a assumir a prefeitura com a exoneração do prefeito José Carlos de Figueiredo Ferraz. O jovem Machion tem algo em comum com o político veterano. Ele faz pedagogia na USP, a mesma onde, em 1946, Vita se formou advogado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Machion nasceu e cresceu no bairro do Canindé, na região central. É filho único, mora com a mãe, uma irmã e a tia. Elas não participam da política, mas o apoiaram na decisão de concorrer. A mãe trabalha como secretária. Não são ricos. Ele não tem bens, mas cursa duas faculdades - faz o terceiro ano do curso de Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Ainda trabalha numa agência da Nossa Caixa. Trabalha e milita contra o plano do governo paulista de "entregar a Nossa Caixa ao Banco do Brasil", como diz. Quando Machion nasceu, Brasil Vita estava eleito para o oitavo mandato e já tinha 28 anos de Câmara. Tinha sido o líder do prefeito Olavo Setúbal, um dos políticos que mais admira, ao lado de Jânio Quadros. "Fui muito ligado ao Jânio desde moço, pois ele veio do Paraná para o Cambuci, onde eu morava." Tinha também obtido, em 1982, a maior votação de um vereador, mais de 215 mil votos. Em 1989, foi absolvido da acusação de improbidade administrativa por conta de reformas na Câmara, mas a carreira ficou abalada. Em 1992, foi eleito com apenas 15 mil votos e, dois anos depois, perdeu a disputa para o Senado.Na última eleição vitoriosa, em 1996, teve 34 mil votos. Com a derrota em 2000, desistiu de tentar em 2004. Agora, espera se eleger e está cheio de planos. "Estou achando que São Paulo tem uma qualidade de vida ruim." Eleito, quer estudar formas para deixar a cidade "mais humana", por isso adotou o lema "Vereador por amor a São Paulo". Vita ainda atende diariamente em seu escritório de advocacia e dá palestras. Na sexta-feira, falou para mais de 40 advogados. "Disposição tenho muita, não percebe pela minha voz?"Machion não conhece pessoalmente Brasil Vita, apenas de ouvir falar. Mas já avisa que não pretende fazer "essa política tradicional". "Não viso a cargos públicos, como os partidos burgueses. Minha carreira será de luta e mobilização." Contra o governo atual, por exemplo: "O PT e o Lula fizeram a opção de se aliar a empresários e banqueiros em detrimento do povo." E a favor dos movimentos que ocupam terras e prédios - e não se trata do Movimento dos Sem-Terra (MST): "O MST se alinhou demais com o governo Lula e se afastou da linha revolucionária."Brasil Vita espera conhecer o jovem estudante, quem sabe na Câmara. "Pelo sobrenome, ele é do Vêneto", diz, referindo-se a uma região mais ao norte da Itália. Já a família Vita veio da Calábria e da Sicília, no sul, a região da máfia. "Quando eu tinha a idade dele também queria fazer uma revolução", diz.

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