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'Quando dinheiro vem da corrupção, não há limites'

Responsável por julgar envolvidos em escândalo na estatal francesa depetróleo diz que caso Petrobras é parecido

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE/GENEBRA, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2015 | 02h05

Só existe uma resposta diante da corrupção: levar os responsáveis aos tribunais e puni-los, seja quem for. O alerta é da ex-juíza e deputada europeia Eva Joly. A franco-norueguesa ganhou notoriedade por julgar a cúpula da petroleira Elf nos anos 90 e revelar como a estatal francesa havia irrigado com dinheiro da corrupção o sistema político do país. Em entrevista ao Estado, Joly conta como lidou com o que foi chamado na época de "o maior escândalo de desvio de dinheiro do mundo ocidental".

Para a ex-juíza, que chegou a ser candidata à presidência da França em 2012 pelo Partido Verde, o caso da Petrobrás e o da Elf têm "enormes similaridades". Durante a entrevista, mostrou que conhece o caso da Petrobrás e os desafios do governo brasileiro.

Em 1996, ela iniciou um caso que abalaria o mundo político e judicial francês. Ao fim de oito anos de investigação, 42 pessoas foram acusadas de corrupção - inclusive ministros, o CEO da empresa e intermediários que desviaram 305 milhões nos anos do governo do socialista François Mitterrand (1988-1995). O CEO da Elf entre 1889 e 1993, Loïk Le Floch-Prigent, foi condenado a cinco anos de prisão e pagou multa de 375 mil. Dos 42 acusados, 30 cumpriram penas.

Ela é clara em seu alerta. "Não se iludam. O dinheiro desviado não foi usado só para pagar campanhas políticas. Acima de tudo, foi usado por políticos e executivos para se enriquecerem de forma ilícita. Para cada barril de petróleo vendido, parte jamais chegou ao povo". A seguir, os principais trechos da entrevista, feita em Genebra:

Corrupção em grande escala é sinal de crise no sistema político?

A corrupção é um crime. Isso precisa ficar claro. Não há explicações ou justificativas que possam ser usadas como motivação. Agora, a realidade é que a democracia brasileira estará ameaçada se não houver uma limpeza na Petrobrás e no sistema político do País, depois do escândalo.

Conhecendo o caso Elf, qual o impacto de um escândalo da dimensão desse da Petrobrás?

É um desafio e representa um dano para a democracia. A corrupção em larga escala tem um impacto que vai muito além de uma empresa. Ele impede, por exemplo, que novas forças políticas ou jovens possam competir nas eleições. Quando quem está no poder ganha dinheiro com o petróleo, eleições livres não existem na prática.

Na investigação francesa, o que a sra. descobriu sobre o setor do petróleo?

A corrupção faz parte da história desse setor. Não era uma questão de saber se a propina era paga, mas como e quanto isso se dava. Um dos diretores com quem eu falei no caso Elf chegou a me contar que sua preocupação, em certo momento, não era acabar com a corrupção - mas simplesmente conseguir que ela fosse mantida em 2,5% do valor dos contratos. Ficou claro que era algo enraizado na empresa, assim como parece ser o caso da Petrobrás. Na Elf, o dinheiro da corrupção ainda irrigava políticos em dezenas de países, ditadores africanas e outros tantos. E isso não era algo exclusivo da Elf, pelo que me diziam já na época. O setor é dos mais corruptos.

Existe algum indício sobre o destino do dinheiro do petróleo?

No caso da Elf, o dinheiro era compartilhado entre políticos e chefes da empresa. Eles levaram uma grande parte. Não se iludam, o dinheiro não foi usado só para pagar campanhas, foi usado para enriquecer políticos e executivos. De cada barril de petróleo vendido, parte jamais chegou ao povo. Na França, apenas 5% do dinheiro desviado financiou partidos. O restante foi para os políticos. Eles compraram mansões, joias, propriedades. Quando o dinheiro vem da corrupção, não há limites.

Qual deve ser a reação a isso?Só existe uma: levar todos aos tribunais, julgar e punir. Caso contrário, a sociedade perderá a confiança que tem nos juízes e nas instâncias democráticas do país. Agora, não se pode deixar passar muitos anos para uma resposta do Judiciário. Num momento, a investigação precisa acabar, mesmo que o caso não esteja completo.

Por que?

A sociedade precisa de uma resposta e, aos culpados, não se pode dar a chance de que seus crimes caduquem ou sejam transformados em multas. Precisa haver uma limpeza, e isso precisa chegar ao topo do governo e das empresas.

Qual deve ser, em tais casos, a atitude do Executivo?

A sociedade precisa ter a sensação de que o assunto está sendo tratado com seriedade. Mas a independência do Judiciário precisa ser protegida. Ha juízes muito corajosos no Brasil e tenho certeza que o caso será conduzido de forma limpa.

Qual o risco que se corre se não houver uma mudança radical no comportamento de empresas e da classe política?

Se não houver uma limpeza e se não for explicado como o esquema funcionou, é a democracia que estará ameaçada. A chefia da empresa e os envolvidos que sabiam e não fizeram nada precisam deixar seus cargos. Isso é o que vai preservar a democracia. Agora, a Justiça precisa tomar cuidado para não cair em armadilhas, como a questão da sentença de prisão. A Justiça precisa garantir que os culpados cumpram suas penas na cadeia, seja quem for. Esse é um sinal forte que a sociedade espera para restabelecer a credibilidade de um sistema.

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