'Quando a sala ficou cheia de sangue, achei que ele iria me matar'

Você está acostumado a ler aqui sobre política. Hoje, peço licença para contar a história da Viviane*

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 08h47

Geralmente você lê sobre política aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Viviane*, de 38 anos. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida - se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos - homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Economista, bonito, bem-sucedido, católico, paizão, cria o filho sozinho. Foi assim que eu conheci e me apaixonei pelo homem que arrebentou meu rosto, deu 25 socos na minha cabeça e quase tirou a minha vida. Parece uma história da periferia, mas aconteceu nos Jardins. Sou filha de médicos, me formei na FGV e ocupava um cargo alto numa multinacional. Um dia, um grande amigo trouxe uma pessoa para me apresentar e foi paixão à primeira vista. A rapidez com que ele me pediu em namoro, com que tudo ia acontecendo, alguma coisa naquilo tudo me incomodava, mas eu não sabia muito bem o que era. Ele era gentil, carinhoso, me apresentou para os amigos e, em dois meses, trouxe ele para morar comigo. Daí em diante, o cheiro de álcool começou a tomar conta do meu apartamento e a história de conto de fadas virou um verdadeiro filme de terror. 

Além do vício e da suspeita de uso de cocaína, descobri que quase tudo que ele tinha me contato era mentira. Quando comecei a questionar e controlar as saídas dele cada vez mais frequentes, vieram os tapas na cara. As agressões verbais só aumentavam. Ele me chamada de vagabunda, me diminuía como pessoa e como mulher, era uma destruição psicológica. A sensação de isolamento que ele foi criando em volta de mim deu tão certo que eu larguei o emprego. O pior de tudo é que a família dele tentou me avisar, a mãe chegou a dizer que temia pela minha vida. Mas eu tive que ver a minha casa toda quebrada e coberta de sangue para acreditar. 

Foi em dezembro do ano passado, seis meses depois que começamos a morar juntos. Ele tinha bebido muito e eu mandei ele embora. Fui encontrar ele dormindo na escada do prédio. Quando tentei acordá-lo, ele caiu de tão bêbado. Meu Deus, pensei, o que foi que eu fiz? Ele levantou, me deu um murro no olho e começou a me chutar sem parar. Corri para o apartamento e ele me seguiu. Me imobilizou pisando nos meus pés, arrebentou meu rosto aos socos e abriu minha boca com uma cotovelada. Eu estava quase desacordada, ele foi para o terraço, acendeu um cigarro e disse: amor, vamos limpar a casa? Inacreditável: amor, vamos limpar a casa?

Quebrei um vaso na cabeça dele e consegui chamar os seguranças, chamei a polícia, ele foi preso. Foi solto dois dias depois, fiquei chocada. Continuo atendendo aos telefonemas dele porque tenho medo de alimentar o ódio, não sei o que ele pode fazer comigo. Aos murros, socos e pontapés, descobri que a agressão não tem nível social, não tem aparência. Descobri que os machistas são coniventes e a sociedade, infelizmente, não nos protege. O que me salva todos os dias são meus amigos e a minha família que me ajudam a lembrar quem eu sou. Se não fossem eles, talvez esse monstro conseguisse destruir uma das únicas coisas que sobrou de mim: a minha fé na vida e no que ainda posso fazer com ela.

Entender o tamanho do problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam seus espaços. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*O nome foi trocado para preservar a identidade da vítima. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.