Quando a máfia briga

Antonio Palocci era o elo que levava o dinheiro das empreiteiras a Lula

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 03h00

Nos filmes de máfia sempre existe aquele momento de tensão em que um lugar-tenente ou alguém menos expressivo na hierarquia começa a dar sinais de que vai roer a corda e ajudar os investigadores ou se bandear para o grupo rival. Na ficção, esse conflito geralmente acaba em morte, mas às vezes resulta na implosão da organização.

No enredo de gângsteres que a Lava Jato revela ao Brasil em temporadas cada vez mais eletrizantes, por ora não se teve ainda – o que é até de certa forma surpreendente, dada a profundidade e a extensão das revelações – casos de queima de arquivo, ou mesmo tentativas de. Mas a implosão das organizações criminosas pelo “pio” de suas figuras proeminentes tem sido e tende a ser o grande complicador para os capos políticos.

Agora questionada pela razão, mais ou menos óbvia, de que não produziu provas materiais, a delação de Delcídio do Amaral foi a primeira nessa categoria de colaborações. Ex-presidente da CPI dos Correios, ex-líder do governo Dilma Rousseff, frequentador assíduo do Instituto Lula e interface do PT com a Petrobrás por décadas, Delcídio sempre foi um insider.

Suas revelações sobre a cadeia de comando no PT e na relação do partido com as empresas, embora não tenham recibo, se mostraram precisas na descrição da engrenagem. Ele disse: Antonio Palocci era o elo que levava o dinheiro das empreiteiras a Lula.

Vieram as colaborações da Odebrecht, essas sim mais municiadas de documentos, pois envolvem a máquina de uma das maiores empresas do País, que tinha até um departamento dedicado à corrupção e, portanto, dispõe de planilhas, passagens, depósitos, contratos para ofertar, e confirmou, ipsis litteris, a narrativa de Delcídio.

Agora está próximo de ser selado o acordo em que Palocci dará o fecho na cadeia de confissões que começa em Delcídio, passa pela Odebrecht, demais empreiteiras, pelo casal João Santana e Mônica Moura e acaba em Lula.

Não é por outra razão que a figura que se sentou diante do juiz Sérgio Moro na quarta-feira nada mais era do que uma fera acuada. Por trás de uma malograda tentativa de soar indignado ou falar como psicólogo sobre as supostas razões de seu antigo lugar-tenente, Lula deixava transparecer na voz rouca e nos olhos assustados a certeza de que não há como contestar o que está por vir.

Por um mistério desses da política, Palocci, um médico interiorano sem nenhuma expertise em economia em 2002, foi o passaporte de ingresso de Lula nos salões dos empresários. Foi ele que, juntamente com os marqueteiros Duda Mendonça e João Santana, passou em Lula a camada de verniz que atestava: se eleito, ele não vai contrariar vossos interesses, muito pelo contrário.

Uma vez que a “esperança” venceu o medo, coube a ele voltar aos que lhe abriram as portas para introduzir Lula e apresentar o prospecto do custo que teriam e dos benefícios de que gozariam para ser “amigos” do PT. Um plano de fidelização que levou empresas à condição de campeões nacionais na velocidade da luz e deu no que estamos vendo agora.

Dizer que este personagem, assim tão central, diz o que diz sem ter elementos para demonstrar as acusações é brincar com a inteligência alheia. Palocci construiu uma consultoria gigante. Contratos maquiados e tráfico de influência eram seu core business. E o Instituto Lula, sua segunda sede. 

Em tempo: a mesma lógica da implosão interna da irmandade valerá para Michel Temer se Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e até capatazes menos influentes como Rodrigo Rocha Loures resolverem abrir o bico. Neste caso, também o clã peemedebista estará diante do risco real de implosão de seu chefe. Sem Rodrigo Janot para atrapalhar.

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