Quadrilha explorava bengalis em obras do DF

Há indícios de contratações na construção civil, incluindo obras do Minha Casa, Minha Vida

Lisandra Paraguassu e Alana Rizzo, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2013 | 23h19

BRASÍLIA - A Polícia Federal achou nesta quarta-feira, 15, um grupo de 80 pessoas de Bangladesh vítimas de uma quadrilha suspeita de tráfico internacional de pessoas. O bengalis eram atraídos com a promessa de receber salário de até US$ 1,5 mil. Chegavam a pagar US$ 10 mil para viajar 16 mil km de Daka, capital de seu país, a Brasília. Há indício de exploração da mão de obra na construção civil, incluindo o programa federal Minha Casa, Minha Vida. Ninguém foi preso até agora.

Os bengalis entraram no Brasil por três rotas: pelo Peru, na fronteira com o Acre - assim como os imigrantes haitianos -, pela Bolívia, na fronteira com o Mato Grosso do Sul, e pela Guiana, na fronteira com Roraima. Os estrangeiros eram instruídos a pedir o status de refugiado - algo concedido automaticamente pelo governo brasileiro. Isso permitia uma situação regular até que o caso seja julgado pelo Conselho Nacional de Refugiados.

O grande aumento de pedidos de refúgio por cidadãos de Bangladesh chamou a atenção da Polícia Federal. Em 2010, foram 39 e no ano seguinte, 111. No ano passado, os bengalis saíram da lista das quatro nacionalidades que mais procuraram o Brasil, substituídos por pessoas de Guiné Bissau e Somália.

‘Degradante’. A operação da Polícia Federal, batizada de Liberdade, encontrou os estrangeiros em seis alojamentos em Samambaia, cidade-satélite a cerca de 30 km de Brasília, em "situação degradante". Segundo o delegado Dennis Cali, que comandou a operação, algumas residências chegavam a ter 20 pessoas em condições precárias.

Parte dos bengalis está desempregada, mas, segundo os federais, aguardava trabalhos em frigoríficos, lava-jatos, além dos postos na construção civil. Nenhum dos bengalis, segundo a polícia, tem vínculo direto com empreiteiras do Minha Casa, Minha Vida, mas muitas delas subcontratam empresas menores para tocar as obras.

Os bengalis terão agora a possibilidade regularizar sua situação. De acordo com o Secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão, a legislação brasileira prevê que vítimas de crimes como o tráfico humano e de trabalho em situações degradantes podem receber o visto residente em caráter humanitário.

"A primeira questão agora é que a investigação prossiga para que se confirme a ocorrência de tráfico e de trabalho escravo. O simples fato de serem identificados como vítimas do tráfico já lhes dá a proteção do Estado brasileiro", disse o secretário.

Segundo Abrão, os estrangeiros que estiverem devidamente contratados por empresas vão receber o visto de trabalho regular. Os demais serão aceitos no País em caráter humanitário.

Procurada pelo Estado, a embaixada de Bangladesh em Brasília se disse surpreendida pelo notícia e pediu apoio ao Ministério da Justiça. Segundo o Itamaraty, o setor de atendimento a diplomatas estrangeiros facilitou o contato com as autoridades responsáveis pela investigação.

O crescimento das rotas usadas por coiotes para trazer imigrantes irregulares para o Brasil preocupa o governo. Os primeiros a usarem os caminhos ilegais foram os haitianos, que receberam um tratamento especial devido à situação crítica do país. No entanto, as mesmas rotas estão sendo usadas agora por africanos e asiáticos, que chegam a passar por sete países diferentes até alcançarem a fronteira do Brasil, normalmente pagando milhares de dólares a atravessadores ilegais.

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