PV quer celebridades para fortalecer palanque de Marina

Cientistas políticos avaliam que estratégia do Partido Verde para eleições de 2010 é 'fisiologismo puro'

Gustavo Uribe, AE

27 de agosto de 2009 | 14h29

O projeto do PV para 2010 que visa fortalecer o tema do desenvolvimento sustentável e enfraquecer o caráter fisiológico da legenda corre o risco de não sair do papel. O partido tem nas últimas semanas contrariado a retórica de que busca uma unidade ideológica ao articular a filiação de políticos e celebridades sem afinidade com o meio ambiente e com a história da sigla.

 

O PV que já vinha a reboque de figuras populares como o deputado federal e escritor Fernando Gabeira (RJ) e o ex-ministro e cantor Gilberto Gil (BA) deve manter no ano que vem um palanque heterogêneo e com pouca identidade. Essa é a avaliação de especialistas entrevistados pela Agência Estado. Para os especialistas, a estratégia da sigla é abrir canais que rendam dividendos eleitorais e deem voz à candidatura da senadora Marina Silva (AC) à sucessão ao Palácio do Planalto em 2010.

 

"O que o PV está fazendo não é diferente do que os outros partidos fazem. Ganhar eleição tem sido o foco principal. Isso é fisiologismo puro", critica o cientista político Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente. "É uma grande ambiguidade. De um lado, convidam a Marina para refundar o partido. De outro, chamam celebridades para atrair votos", alfineta Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

 

Ainda pouco conhecida pelo grande público, Marina vai depender dos palanques estaduais para projetar-se na disputa eleitoral. Sem contar com nomes de peso, o partido tem corrido atrás de figuras que compensem a falta de candidatos. Entretanto, os novos filiados não têm afinidade com os planos da legenda para 2010, o que deve minar a promessa de um partido novo em benefício do jogo eleitoral.

 

Famosos na urna

 

"O PV colocou o cavalo na frente dos bois. Nem ao menos a Marina Silva se filiou ao partido e a base já articula apoios que contrariam os objetivos do partido para 2010", explica Carlos Melo. A primeira celebridade arrebatada pela legenda foi o psiquiatra e autor de best-sellers Augusto Cury, que se filiará ao PV no próximo domingo, 30. O escritor já vendeu em torno de 15 milhões de livros e é bastante conhecido pelos leitores de autoajuda. "É capaz de que ele seja mais conhecido do que Marina Silva", comenta uma das lideranças do PV, que antecipou que o partido também convidou o escritor Paulo Coelho para se filiar à legenda.

 

"São famosos através dos quais a sigla pretende angariar votos, mesmo que não tenham afinidade com a retórica partidária", avalia Humberto Dantas. Outro nome convidado pelo partido foi o do vereador mais votado no País nas eleições de 2008, o apresentador de TV e autor de livros de autoajuda Gabriel Chalita (PSDB). A sigla pretende lançar o tucano a um dos dois cargos de senador que serão vagos em São Paulo em 2011. Lideranças do PV creem que Chalita deve ganhar força diante da imagem arranhada do virtual candidato petista ao cargo, o senador Aloizio Mercadante (SP), criticado por voltar atrás em decisão que rechaçou o arquivamento pelo Conselho de Ética de 11 ações contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).

 

Além de nomes famosos, o PV também tem sondado figuras que fizeram parte do governo federal e que carregam munição contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a sua candidata à sucessão presidencial, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. A aposta do partido é incorporar políticos desiludidos com o PT, como o senador Flávio Arns (PT-PR), que recebeu convite do PV na semana passada. "Fiquei muito feliz com o assédio da legenda", disse o parlamentar, que ainda não confirmou se irá aderir à sigla. "Primeiro tenho de me desincompatibilizar do PT. Depois vou pensar sobre o convite", completou.

 

Um outro crítico do governo Lula que recebeu a visita das lideranças do PV foi o ex-delegado da Polícia Federal (PF) Protógenes Queiroz, mentor da Operação Satiagraha. Acusado de violar sigilo funcional durante as investigações que culminaram na prisão do banqueiro Daniel Dantas, o ex-policial aponta o governo federal como responsável pela sua demissão do cargo. Protógenes também foi convidado para integrar mais três legendas e deve anunciar a sua decisão no dia 7 de setembro. "É um nome insatisfeito com o PT, que deve se juntar ao discurso do partido para abrir fogo contra a principal rival de Marina na disputa, a ministra Dilma", avalia Humberto Dantas.

 

O cientista Carlos Melo ainda ressalta que mais do que ferrenhos oposicionistas, o senador Arns e o ex-delegado Protógenes são grifes que devem ser muito bem exploradas pelo PV em busca de dividendos eleitorais para a legenda. "Eles são também celebridades do universo político. Um deles é símbolo da ética e o outro da luta contra o colarinho branco", lembra o cientista. "Nenhum dos dois tem a meu ver a identidade do PV, mas devem puxar muitos votos para a legenda caso aceitem se filiar", frisou.

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