PV contraria eleitorado de 2010, diz Marina

Para ex-senadora, práticas da sigla estão na ‘contramão’ dos 19,6 milhões de votos recebidos

Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo

24 de março de 2011 | 23h00

A ex-senadora e candidata derrotada à Presidência da República Marina Silva divulgou nesta quinta-feira, 24, uma carta com críticas à direção de seu partido, o PV. Acusa-a de não honrar compromissos de democratização interna assumidos quando se filiou ao partido no ano passado e renovados na campanha presidencial. "Se deixarmos de lado a renovação política dentro do partido, acabou-se a moral para falar de sonhos, de ética, de um mundo mais justo e responsável com o meio ambiente", diz.

 

É a primeira vez que a ex-senadora, que ficou em terceiro lugar na corrida presidencial, com 19,6 milhões de votos, expõe publicamente - e em tom enérgico - seu descontentamento com a direção do PV, com a qual vem tendo confrontos internos há meses. Sua reação foi desencadeada pela recente decisão da executiva nacional do partido de não realizar convenção e eleição neste ano, como havia sido combinado, ampliando o próprio mandato até 2012.

 

Para a ex-senadora, a decisão da executiva "vai na contramão do que foi dito na campanha e do compromisso feito perante o País", além de representar a supressão "da pouca democracia ainda existente" no PV.

 

Sem citar nomes, o texto ataca de maneira inequívoca o presidente do partido, deputado José Luiz Penna (SP), que está no cargo há 12 anos e é conhecido sobretudo pelo estilo pragmático com que conduz a legenda. A ex-senadora afirma que o novo jeito de fazer política que ela defende "requer enfrentar a crise geral pela qual passam os partidos, que, de instrumentos de representação e avanço social, cristalizaram-se como máquinas burocráticas, amorfas e voltadas para a conquista do poder pelo poder, muitas vezes não importando os meios, e abandonando a disputa programática pela simples disputa pragmática".

 

Transição. Marina decidiu divulgar a carta no mesmo dia do lançamento, em São Paulo, do movimento Transição Democrática. Idealizado por parlamentares e dirigentes verdes descontentes com os rumos do partido, o movimento se destina a reverter a decisão da executiva. Defende a realização da convenção, com eleições para a nova diretoria, no prazo máximo de seis meses. Nesse período seriam realizados debates e seminários sobre democracia partidária em diferentes regiões do País.

 

Não está descartada para os integrantes da Transição Democrática, caso a iniciativa fracasse, o desligamento do PV e a criação de um partido. Em entrevista concedida ontem ao Estado, o deputado Alfredo Sirkis (RJ), militante histórico, fundador do PV e integrante do núcleo verde mais próximo de Marina, observou: "Eu não diria que isso é impossível".

 

Na carta, Marina não se refere a essa possibilidade, preferindo insistir na busca de uma solução negociada.

 

"Reafirmo meu desejo de permanecer neste partido, contribuindo para o seu crescimento e qualidade política", diz. "Estou confiante que a militância verde, seus amigos e simpatizantes, além de todas as pessoas que querem o jeito novo de fazer política, contribuirão para o reencontro do PV consigo mesmo."

 

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