Punir militares por torturas não é prioridade, diz ministro

Preso político por cinco anos durante a ditadura militar, o ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, afirmou nesta segunda-feira que a eventual responsabilização penal de militares responsáveis por torturas não é uma prioridade hoje no Brasil, ao contrário de países como Chile e Argentina. O ministro disse considerar legítima a busca de familiares por punição, mas declarou que o foco do governo Lula é a localização dos corpos de desaparecidos políticos."Eu quero garantir os corpos. Não vou levantar e dizer: `Você tem que ser punido´, porque vou chegar para o mesmo general, almirante ou brigadeiro para ter uma conversa de que é preciso encontrar os corpos. Se ele virar para mim e disser: `Você quer isso para mandar todos nós para a cadeia´, evidentemente a tendência dele me ajudar vai ser menor", declarou Vannuchi. "Estou disposto a abrir mão da exigência de punição em troca do amplo conhecimento, mas não considero ilegítimo o pleito dos familiares."O ministro participou nesta segunda de cerimônia que marcou o início, no Rio, da coleta de amostras de sangue de parentes de desaparecidos políticos, no auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O material colhido vai integrar um banco de DNA que permitirá a realização de exames para identificar mortos e desaparecidos políticos no País. Já realizada em São Paulo, Salvador e Recife, a coleta é uma parceria com o grupo Tortura Nunca Mais.Vannuchi disse, no entanto, que a posição do governo em relação aos militares pode mudar se houver pressão social. "Acho que o que o governo faz reflete o ambiente social. Se a imprensa, a universidade e os movimentos sociais fizerem pressão e o País achar que a anistia não foi recíproca, você cria possibilidade de ter algo semelhante ao que ocorreu no Argentina e no Chile." O governo iniciará até o fim do ano a fase de depoimentos para tentar descobrir possíveis locais onde corpos de desaparecidos foram enterrados.O presidente do movimento Tortura Nunca Mais/RJ, Elizabeth Silveira, afirmou que o banco de DNA é importante na luta em busca da justiça e da verdade, mas não terá eficácia sem a abertura dos arquivos. "Apesar do avanço, nos deixa extremamente preocupados se vamos ficar só aqui. A abertura dos arquivos é fundamental. Quando vamos ter as informações que merecemos? Somos o País mais atrasado da América do Sul no resgate da memória."O ministro disse que visitou Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai e observou um "quadro generalizado de ocultação de arquivos". "No Brasil, os arquivos não estão menos abetos. Há um grande mal entendido em relação a isso."Nesta segunda, o físico Marcelo Ribeiro, de 45 anos, professor da UFRJ, deixou uma gota de sangue na esperança de localizar o corpo do pai, Walter de Souza Ribeiro, militante do PCB desaparecido em 1974. "As coisas são extremamente lentas. Daqui a pouco não vai existir ninguém nem para ter o sangue coletado."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.