Publicação esclarece caso das ossadas de Perus

A sobreposição de imagens que ajudou a identificar Frederico Eduardo Mayr, montada sobre o mapa da emblemática região do Araguaia, está na capa edição extra de março do ?Jornal da Unicamp? (JU), ilustrando o documento, de 24 páginas, intitulado ?Projeto Perus Passado a Limpo? que começa a circular nesta segunda-feira. A publicação mostra detalhes da polêmica interna iniciada há exatos dez anos quando foram enviadas ao Departamento de Medicinal Legal e Deontologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) as 1.049 ossadas descobertas no Cemitério Dom Bosco, em Perus ? zona norte da capital paulista. Mayr era militante do Movimento de Libertação Popular (Molipo) e morreu nas câmaras de tortura do DOI/Codi-SP, em 1972. Enterrado com nome falso no Cemitério Dom Bosco, seus restos mortais estavam na vala comum encontrada em setembro de 1990. Foram identificados na Unicamp e sepultados, dignamente, no jazigo da família, no Rio de Janeiro, em 13 de julho de 1992. Além de Mayr, outras seis ossadas de Perus e mais uma de Xambioá (no Araguaia) foram identificadas como sendo de desaparecidos, mortos durante o regime militar, ao longo de sete anos de trabalho ? um tempo que, segundo o documento, exigiu grandes esforços financeiros, técnicos e institucionais da Unicamp. Se para alguns, a identificação de sete ossadas parece pouco, a Universidade realça pelo Jornal da Unicamp ? hoje praticamente seu porta-voz ? que o trabalho foi compensador. Tudo isso entre artigos cheios de esperança como o de dom Paulo Evaristo Arns ou relatos precisos como o do repórter Caco Barcelos que descobriu o paradeiro das ossadas. Há ainda emocionadas e saborosas entrevistas como as do professor de Ciência Política do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, Reginaldo Carmello Corrêa de Moraes ou de João Quartin de Moraes, professor do mesmo instituto, ex-militante da resistência armada no final dos anos 60, argumentos que redesenham parte da história recente do País.É o resgate de ?um fragmento histórico do qual os brasileiros não sentem qualquer orgulho, mas que precisava ficar registrado para as futuras gerações como forma de alerta contra eventuais novos ataques à democracia?, diz o texto de abertura da publicação.Braço-de-ferroTrata-se, ainda, de uma primeira manifestação sobre o assunto em que os embates internos, as disputas e a polêmica não ficam abafadas sob o peso e a sombra do silêncio institucional, que pesa sobre assuntos mais delicados, para esconder o que quase sempre não passa de ?fogueira de vaidades?. O legista Fortunato Badan Palhares, que por cinco anos chefiou a equipe de peritos da Unicamp, afirma, em artigo intitulado ?A história que poucos conhecem?, que as ?assim chamadas ?ossadas de Perus?, que a opinião pública se habituou a relacionar com desaparecidos políticos, na verdade eram na sua quase totalidade de indigentes da Grande São Paulo?. Ele garante que no episódio, só a Unicamp cumpriu seu papel, abandonada pelo Estado que alardeou apoio mas nunca enviou os recursos necessários.O professor Mohamed Habib do Instituto de Biologia (IB) e responsável pela Coordenadoria de Relações Institucionais e Internacionais (Cori) da Unicamp discorda. Para ele, o tempo tornará essas histórias de domínio público, para que a sociedade possa julgar corretamente o papel das pessoas em cada uma delas. Ele vai além, referindo-se à expressão ?as assim chamadas ?ossadas de Perus??. Habib indaga a Badan Palhares: ?o que levaria um governo a enterrar mais de mil cadáveres de indigentes num cemitério clandestino, já que, pela lei, eles têm o direito legal de serem enterrados em cemitérios públicos??A professora Maria Cristina Von Zubem de Arruda Camargo também questionou Badan Palhares que a criticou em seu artigo, dizendo que, em sua participação no episódio das ossadas, cumpriu o papel de cidadã interessada em resgatar a memória e a verdadeira história dos fatos ocorridos no período da ditadura militar. "São mais uma artimanha. Ele conta a versão dele e oculta os fatos reais", disse a professora professora da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e assessora da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Preac) ao se referir ao legista.Cara novaA edição extra do JU parece manter o tom da disposição de mostrar a cara com a qual Unicamp vai chegando aos seus 35 anos, que serão completados dia 5 de outubro deste ano. Para boa parcela da população, saber o que ocorre no que às vezes parece um claustro de gênios, em busca da pedra filosofal, ainda é quase como decifrar um enigma. O JU vai derrubando esse preconceito. ?Sem dúvida, boa parte da população da cidade ainda tem esse juízo equivocado?, comenta o jornalista Luiz Sugimoto, de 43 anos, que assumiu a coordenação da publicação em julho de 1999. ?Mas poucas universidades do País estão tão integradas à vida da comunidade quanto a Unicamp?, garante.No Distrito de Barão Geraldo, um dos lugares menos violentos da cidade de Campinas ? onde ocorrem pelo menos dois homicídios por dia ?, a Unicamp acolhe um exército de 1841 docentes (88% com doutorado), 8.400 servidores, 11.233 alunos de graduação, 10.773 pós-graduandos, 15.000 alunos de extensão e 2.800 docentes de ensino técnico. E realiza trabalhos importantes como o da identificação das ossadas de Perus. ?Nossa equipe não fez nada demais. Apenas tornou público o que ocorre aqui, de modo ético e realista?, explica ele.

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