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Puberdade democrática

Brasil precisa superar a adolescência, sob pena de ficar senil sem nunca ter sido adulto

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 03h00

Quanto vale a democracia para você? E para o seu candidato a presidente da República? Para mim ela é um valor absoluto, não passível de negociação, flexibilização, tergiversação ou relativização. O compromisso com ela tem de ser total. Questão de princípio. Um limite rígido, que separa o aceitável do inaceitável.

No Brasil, a democracia entra na puberdade. Como todo adolescente, se acha plena, invencível. Testa seus próprios limites correndo riscos tolos, bestas. Olha para o passado dos pais com desdém, como aquele passado embolorado que aconteceu com eles, porque são velhos, mas jamais se repetirá com ele, o jovem malandrão.

Nas democracias mais velhas, portanto menos fanfarronas, a institucionalidade é um bem, não a tia chata que você tem de driblar a toda hora para pegar o carro escondido.

É algo com que não se brinca, porque se sabe que qualquer quebra institucional, por aparentemente menor que seja, abre uma brecha para outras maiores e pode levar o barco a afundar.

No Brasil adolescente, um presidente da mais alta Corte da Justiça combina com o presidente do Senado de mudar nas coxas a lei que trata do impeachment e fica tudo por isso mesmo.

Um partido força os limites das instituições até esgarçar seu tecido, insistindo na candidatura à Presidência da República de um preso, condenado em duas instâncias por crimes comuns (corrupção e lavagem de dinheiro), e tudo bem.

Um candidato a presidente e seu filho, deputado federal, dizem que vão resolver os problemas do País “nem que seja a bala” e são aplaudidos por uma turba cada vez mais fanática e mais disposta ao tudo ou nada.

Este mesmo candidato diz que se tiverem de morrer “10, 20” para que se resolva um problema de segurança, “paciência”, numa confissão prévia de falência do Estado, e quem questiona isso – uma vez que as leis do País não preveem essa permissão – é perseguido como defensor do “politicamente correto” ou “de bandido”. 

Nada disso. O que existe é lei. Estado. Constituição. Não se resolve a violência transigindo com a barbárie, sob pena de a democracia sucumbir. Simples assim. Sabem disso todos aqueles que têm na defesa das instituições um valor, e não um discurso de conveniência. Não há meio termo, pois se houver se cruzou a barreira que permite relativizar tudo o mais. E não se pode fazer isso.

Numa democracia que já tivesse superado a fase das espinhas purulentas, nunca uma Corte eleitoral – por si só uma excentricidade juvenil – se reuniria a portas fechadas depois de decidir que o preso de que se falou antes não pode, mesmo, ser candidato e seu partido não pode usar o horário eleitoral até que indique um candidato apto para, logo em seguida, fechar as portas e decidir que tudo bem, vai. É só por hoje. Amanhã a gente cumpre a decisão. Afinal, já ficou tarde.

Isso é coisa de moleque que pega o carro do pai escondido, não de gente que veste toga. Isso dá margem não para que o partido em questão se sinta contemplado, mas que teste ainda mais os limites das instituições, como vem fazendo sem reserva, não se furtando nem a falsear a História numa narrativa farsesca.

Toda essa abundância de molecagens, à esquerda, à direita, vindo dos próprios Poderes constituídos, numa confluência de irresponsabilidade com o aperfeiçoamento da democracia, tem consequências graves. Elas são diárias. Aparecem na rápida corrosão do tecido social, que se pode notar na falta de educação geral nas redes sociais, na propensão de uma parcela grande do eleitorado a votar numa ideia fantasiosa de passado e de outra enorme a votar com o fígado.

Já passou da hora de o Brasil superar a adolescência. Sob pena de ficar senil sem nunca ter sido adulto.

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