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Eliane Cantanhêde
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PT versus PSDB

PT ressurge das cinzas e o que está em jogo é a sobrevivência do PSDB

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2018 | 03h00

Há apenas dois anos, o PT estava liquidado e só venceu em uma das 27 capitais, a pequena Rio Branco, no Acre, enquanto o PSDB invadia o “cinturão vermelho” e vencia espetacularmente na capital de São Paulo, alçando o então governador Geraldo Alckmin à condição de principal vitorioso individual do País. O mundo dá voltas e tudo se inverteu.

O ex-presidente Lula cresceu nas pesquisas no mesmo ritmo em que a Justiça o condenava em primeira e em segunda instâncias, até levá-lo à cela em Curitiba. Com Lula batendo em 30% para a Presidência, apesar de ficha suja, o PT ressurgiu das cinzas do mensalão, do petrolão e das prisões de seus presidentes, ministros e tesoureiros.

Beneficiado pelo impeachment de Dilma (livrou-se de um fardo), na eleição o partido garantiu a hegemonia na esquerda, pondo o PCdoB no seu devido lugar e aniquilando as chances de Ciro Gomes. Da cadeia, Lula escolheu o nome, a estratégia, o timing, os alvos e até o adversário. A fé cega dos lulistas fez o resto.

No caminho oposto, o PSDB foi atropelado pela divisão do centro, a decantada deslealdade tucana, a revelação do real Aécio Neves e as operações contra seus governadores – inclusive, a dias das eleições. Daí surgiu um atalho: Jair Bolsonaro, militar e político medíocre. Quanto mais ele crescia a olhos vistos, mais seus adversários se recusavam a ver. Pois é...

Se o PT virou uma “religião”, o que dizer do bolsonarismo, apoiado num salvador da pátria, no manjado discurso de ser o novo, de fazer tudo diferente, de não se misturar com os políticos? Uma recriação do caçador de marajás, mas as pessoas esquecem rápido.

Espremido entre um e outro, e enrolado nas suas mazelas e contradições, o PSDB teve, de quebra, três ataques especulativos: Meirelles, Alvaro Dias e Amoêdo. De onde e de quem mesmo eles tiram votos? Tudo isso conspirou contra o centro, a favor dos extremos.

Na semana final das eleições, o PT é o maior cabo eleitoral de Bolsonaro e Bolsonaro é o do PT. O pavor da volta do PT, um exército bem treinado e pronto para “tomar o poder” (como diz José Dirceu), impulsiona a candidatura do capitão. E o pânico diante de Bolsonaro, Hamilton Mourão e Paulo Guedes, um exército de trapalhões sem a menor ideia do que fazer no Planalto, alavanca a de Fernando Haddad.

Efeitos imediatos: de um lado, os eleitores de Alckmin, Meirelles, Amoêdo e Dias rumam para Bolsonaro; de outro, o fortalecimento dos candidatos do PT. Os governadores Camilo Santana (CE), Rui Costa (BA) e Wellington Dias (PI) se reelegem em primeiro turno. A senadora Fátima Bezerra (RN) é favorita ao governo e o senador Humberto Costa (PE) assumiu a dianteira para o Senado. Como contraponto, três governos tucanos (PR, GO e MS) estão às voltas com a polícia, não só com as urnas.

Se vencer o PT, os bolsonaristas farão uma oposição implacável nas redes sociais e nas ruas, atiçados pela democracia a la Bolsonaro: a eleição só vale se ele vencer. Se o vitorioso for Bolsonaro, os petistas e seus braços armados, MST, CUT, MTST – e, dizem, o “novo” STF – vão, primeiro, soltar Lula. Depois, à forra. Nos dos dois casos, a mídia que se cuide.

Quanto ao PSDB, o que está em jogo não é a vitória ou não de Alckmin, mas a sobrevivência do partido. O PT tem Lula, ordem unida, governos e disciplina. O PSDB perdeu o Sul, o Centro-Oeste e o eleitorado tucano, não tem mais Serra e Aécio, não terá Alckmin, e Fernando Henrique pensa mais nele do que no partido. Sobra o quê?

O único consolo é que a eleição passa, mas a rejeição fica e o Brasil não é um País de extremos. Depois de se dividirem e darem a vitória a Lula ou a Bolsonaro, os líderes de centro vão ter de se reinventar. E o Centrão? Estará onde sempre esteve: no poder, ganhe quem ganhar.

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