Dida Sampaio| Estadão
Dida Sampaio| Estadão

PT vai usar crise para tentar anular impeachment

Parlamentares do partido querem aproveitar abalo político da gestão Temer para defender que o processo está “contaminado”

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2016 | 11h42

BRASÍLIA - O PT vai usar a primeira crise do governo Michel Temer para tentar anular o processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff. Mesmo com Temer agindo rápido e afastando o titular do Planejamento, Romero Jucá – depois que veio à tona um diálogo no qual ele comenta a necessidade de “estancar essa sangria", em possível referência à Operação Lava Jato –, senadores do PT farão de tudo para paralisar a comissão do impeachment.

Embora até o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva considere difícil Dilma retornar ao Palácio do Planalto, após o julgamento final no Senado – previsto para ocorrer entre agosto e setembro –, os problemas no início da gestão Temer animaram o PT. Sob comando de Lula, será reforçada a ofensiva para reverter seis votos de senadores que votaram pela deposição da presidente. A ideia é bater na tecla de que o processo foi “contaminado” por desvios de finalidade.

Dilma passou a segunda-feira, 23, em reunião com antigos auxiliares, no Palácio da Alvorada. Antes do almoço, a presidente afastada chamou o ex-ministro da Secretaria de Governo Ricardo Berzoini e pediu que ele desse o tom da reação petista ao caso envolvendo Jucá. Berzoini é hoje o homem que coordena a estratégia da “pronta resposta” no Alvorada, para fazer um contraponto à gestão Temer.

Conversa. “Exigimos a demissão de Romero Jucá e a investigação da relação de Temer com esse diálogo”, disse Berzoini, numa referência à conversa entre Jucá e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. No diálogo que foi gravado e ocorreu em março, semanas antes da votação do impeachment na Câmara, os dois conversam sobre a corrupção na Petrobrás.

“Romero Jucá foi o grande condutor do impeachment no Senado e, agora, numa conversa com Sérgio Machado, aparece dizendo que o centro do governo Temer era o pacto para encerrar as investigações da Lava Jato”, disse o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), ele próprio alvo dessa operação. “É claro que o impeachment, assim, está contaminado.”

Para Lindbergh, o governo Temer aumentou a previsão do déficit fiscal de 2016 para “pagar muita dívida contraída na votação do impeachment”. Recebido ontem no Senado aos gritos de “golpista”, Temer entregou ao presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), a proposta de revisão da meta, com déficit fiscal de R$ 170,5 bilhões, quase o dobro do que os R$ 96,6 bilhões previstos por Dilma.

A estratégia de Dilma e do comando petista será bater na tecla de que Jucá é, no Senado, o mesmo que Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foi na Câmara. Cunha conduziu o processo de impeachment na Câmara e foi afastado do comando da Casa por decisão do Supremo Tribunal Federal. Réu na Lava Jato, ele é acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Além disso, dirigentes e ex-ministros do PT foram informados de que Machado também teria denunciado Renan e o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP). Renan ainda é considerado um aliado de Dilma.

O presidente do Senado disse ontem que, por causa da antecipação da sessão do Congresso que analisará a revisão da meta fiscal – marcada para hoje – a reunião da comissão do impeachment foi adiada para amanhã. Com os mesmos integrantes, o colegiado vai avaliar o mérito da questão do impeachment, ou seja, se Dilma cometeu crime de responsabilidade.

O ex-ministro da Advocacia-Geral da União José Eduardo Cardozo apresentará a defesa de Dilma no Senado em 1.º de junho. Cardozo vai solicitar a produção de provas e arguição de testemunhas. / COLABOROU ISABELA BONFIM

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