PT vai sangrar muito para recuperar credibilidade, diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu que o PT "vai sangrar muito" para recuperar a credibilidade junto ao eleitorado, após os escândalos do uso de caixa 2 e do mensalão. Em pouco mais de 35 minutos da entrevista, concedida na última quinta-feira e veiculada hoje pelo Fantástico, da TV Globo, o presidente defendeu a "instituição" PT que, segundo ele, não pode ser condenada pelos erros de alguns integrantes. Depois de um ano onde seu governo enfrentou a maior crise política e com crescimento menor do que o esperado, o Lula afirmou que 2006 será "o ano do povo brasileiro". O presidente garantiu que o País terá um "forte crescimento", com mais distribuição de renda e empregos. "Em 2005, tivemos um problema porque a inflação voltou, mas eu posso dizer que no quarto trimestre a economia já está crescendo", disse, justificando a frustração das expectativas para o ano passado.Mais uma vez, Lula afirmou que ainda não decidiu se sairá candidato à reeleição: "Eu não tenho pressa. Quem tem pressa são meus adversários". E voltou a garantir que não sabia do esquema de caixa 2 atribuído a assessores próximos, como o ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares. "A única coisa que eu peço a Deus é que, quando terminar tudo isso, aqueles que me acusaram me peçam desculpas", disse, criticando a "leviandade" no julgamento dos envolvidos na crise política. Como já havia sido divulgado no dia a gravação da entrevista, Lula afirmou que o escândalo do caixa 2 e do mensalão "soou como se fosse uma facada nas costas de alguém que junto com outros milhões de brasileiros dedicou parte da sua vida para construir um instrumento político que pudesse ser diferente de tudo que estava aí". A seguir os principais trechos da entrevista:Reeleição"O meu papel nesse momento é poder dizer ao povo brasileiro que a economia brasileira vai crescer, que nós vamos melhorar a distribuição de renda e que o Brasil vai ser muito melhor em 2006 do que foi em 2005, do que foi em 2004, do que foi em 2003. E de que o Brasil está conquistando a chance de ter um ciclo de desenvolvimento duradouro, que possa ser de dez ou 15 anos, para que a gente possa tirar o Brasil do eterno lugar de país emergente para colocar o Brasil no rol dos países desenvolvidos. (...) E nós estamos criando todos os instrumentos para isso. Porque, veja, eu tenho um ano de mandato e esse ano de mandato eu quero fazer com que ele seja exemplar para o Brasil do ponto de vista das oportunidades que o Brasil tem que ter a partir de 2006. (...) A única coisa de que eu tenho certeza de dizer ao povo brasileiro é que 2006 será o ano. Será o ano do povo brasileiro, porque está tudo engatilhado, está tudo preparado, está tudo armado para que o Brasil tenha um forte crescimento, uma forte distribuição de renda, muito emprego para esse povo e quem sabe a gente construir junto o Brasil que nós sonhamos há muito tempo construir."Reeleição"Se na hora que for decidir, lá para o meio do ano, chegar à conclusão que eu possa ser candidato porque interessa às forças políticas que me apóiam eu ser candidato, eu também não tenho nenhum problema. (...)Eu não tenho pressa. Quem tem pressa são os meus adversários. Eu não tenho pressa. Eu tenho que governar o Brasil até o dia 31 de dezembro e tenho muita coisa para fazer. Muita coisa para fazer. E muita coisa para colher. Porque você sabe que é assim: você planta, rega e um belo dia você começa a colher."Crise política"Se há indícios, tem que ter uma investigação séria e que eu quero que ela seja feita para o Zé Dirceu como eu quero que ela seja para mim, como eu quero que ela seja feita para você. A investigação tem que ser feita com a maior seriedade. E, na hora em que a gente tiver a investigação feita corretamente e o veredicto, aí você fala `bom, esse cidadão cometeu uma heresia, por isso, esse cidadão tem que ser punido´. Isso vale para todos nós. Não vale para um, nem para outro. (...)Tudo que está sob investigação naquilo que depender do governo, naquilo que depender da polícia federal, naquilo que depender de ações administrativas, será feito a ferro e fogo. (...) Depois desse processo todo é que todos nós - você, eu e quem está nos assistindo - vamos poder dizer "é verdade ou não era verdade". Com relação à minha pessoa, a única coisa que eu peço a Deus é que, quando terminar tudo isso, aqueles que me acusaram peçam desculpas. Só peço isso. Não quero, não quero nada mais do que isso. Peçam desculpas. Porque também a leviandade tal como ela é feita muitas vezes...ela tem um preço. E eu acho que é precipitado, errado fazer qualquer julgamento precipitado da pessoa. Sabe, dizer que a pessoa vai ser a melhor em campo ou que vai ser a pior em campo antes de o jogo começar."Corrupção "O que é importante não é se você sabia ou não, porque se eu tivesse condições de saber não teria acontecido. Esse é o dado concreto. Se eu tivesse condições de saber não teria acontecido. Na medida em que eu soube, naquilo que diz respeito ao presidente da República, as providências todas foram tomadas. Foi afastado quem deveria ser afastado. Foi punido quem deveria ser punido. Agora, a justiça faça a sua parte. (...) O conjunto dos acontecimentos, para mim, sabe, soou como se fosse uma facada nas costas de alguém que junto com outros milhões de brasileiros dedicou parte da sua vida para construir um instrumento político que pudesse ser diferente de tudo que estava aí."PT"O PT é um partido muito grande. O PT é um partido de quase um milhão de filiados. Se três, quatro, meia dúzia, dez, quinze ou vinte pessoas de uma organização política cometem erros não significa que o partido todo está cometendo o mesmo erro. O partido tomou as decisões, o partido tem uma nova direção e o partido sabe que vai ter que fazer um trabalho imenso para recuperar o prestígio que ao longo dos anos conquistou junto à sociedade brasileira. Portanto, o partido tem consciência da gravidade do problema. Tem consciência da encalacrada (sic) em que se meteu. E tem consciência que somente a verdade é que vai poder dar ao partido outra vez a credibilidade que ele conquistou a duras penas nesse País. (...) O PT cometeu um erro...um erro que é de uma gravidade incomensurável. Todo mundo sabe - e sabe o PT hoje e sabe quem cometeu os erros - que o PT cometeu um erro que será de difícil reparação pelo próprio PT. O PT vai sangrar muito para poder se colocar diante da sociedade outra vez com uma credibilidade que ele conquistou ao longo de 20 anos."Política econômica"Eu estou seguro que o que nós estamos fazendo para economia brasileira é um bem incomensurável para os meus filhos, para os meus netos, para os teus filhos, para os teus netos. O que eu quero é que eles colham um país sólido. Por isso, hoje a gente não precisa mais discutir estabilidade porque ela está consagrada. Não precisamos mais ficar discutindo inflação porque provamos que temos coragem de controlá-la. E fazemos o que for necessário para controlar. Sabe por quê? Porque controlar a inflação significa mais comida na mesa do trabalhador e mais salário no bolso de quem vive de salário nesse País. E nós sabemos que fazendo isso a gente vai passar para o Brasil e para o mundo inteiro a confiança necessária para que o Brasil continue crescendo."

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