Gabriela Bilo
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Com frente popular, PT propõe guinada à esquerda para a sucessão de Dilma

Grupo ligado a Lula, que estimulou aliança eleitoral com o PMDB, agora faz críticas veladas ao aliado e procura criar fato político para desviar o foco da agenda negativa do pacote fiscal e das denúncias de corrupção para a disputa presidencial de 2018

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2015 | 14h35

Atualizado às 22h19

BRASÍLIA - O PT vai propor “uma nova política de alianças”, ancorada por uma frente de partidos e movimentos sociais, para disputar a sucessão da presidente Dilma Rousseff em 2018. A proposta representa uma guinada à esquerda no receituário petista dos últimos anos e consta de documento intitulado “Carta de Salvador”, que será apresentado pelo grupo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no 5.º Congresso da legenda, a partir de quinta-feira, 11, na capital baiana. 

A oposição diz que a ideia foi lançada para encobrir a sigla PT nas próximas eleições, após os sucessivos escândalos de corrupção que atingiram o partido. Dirigentes do partido, porém, garantem que Lula acalenta o plano desde 2010. 

Provável candidato à sucessão de Dilma, o ex-presidente é simpático à Frente Ampla do Uruguai, coalizão eleitoral de centro-esquerda integrada por vários partidos e organizações da sociedade civil que governa o país desde 2005. No Brasil, porém, a Lei Eleitoral não permite que sindicatos, por exemplo, apareçam na coligação de um candidato. 

A ideia do PT, na prática, é criar um fato político e desviar o foco da agenda negativa do ajuste fiscal e das denúncias de corrupção contra integrantes do partido, reforçadas pela Operação Lava Jato – em abril, a Polícia Federal prendeu o então tesoureiro do partido João Vaccari Neto. 

Veja a íntegra da "Carta de Salvador" que será apresentada no 5º Congresso do PT

“A estratégia da frente é nosso caminho para firmar uma nova aliança social, que incorpore setores novos e tradicionais da classe trabalhadora, das camadas médias, da intelectualidade e do empresariado simpático ao nosso projeto nacional”, diz trecho da “Carta de Salvador”, antecipada pelo estadão.com.br.

Com críticas veladas ao PMDB do vice-presidente Michel Temer, o documento passará por votação dos petistas na sexta-feira e deve receber emendas, mas tem tudo para ser aprovado como resolução final do encontro. Motivo: a chapa liderada pela corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), grupo de Lula, tem 429 (52,62%) dos 800 delegados inscritos no encontro. Além disso, a tendência Mensagem ao Partido, segunda força interna do PT, apoia a criação de uma “frente” nas eleições.

Divergências. Convocado para corrigir os rumos do PT diante de sua mais grave crise política, o 5.º Congresso do partido vai atenuar as críticas à política econômica do governo, apesar das divergências em relação ao pacote fiscal. O encontro será aberto por Lula e encerrado por Dilma, no sábado.

“(...) Diante do cenário atual, em que o mundo sofre as consequências do terremoto da crise global do capitalismo, o PT vem a público apresentar propostas de superação das dificuldades do momento, ao (mesmo) tempo em que nos fiamos na determinação e competência do governo da presidenta Dilma para nos liderar nessa travessia”, destaca o documento da CNB. 

Nos últimos dias, Lula, ministros do PT e a própria Dilma atuaram para que o partido não jogasse mais combustível na crise. Mesmo assim, o presidente da legenda, Rui Falcão, avisou ao Planalto que é impossível impedir manifestações individuais e faixas de “Fora Levy” podem aparecer no encontro. Em entrevista ao Estado publicada na segunda-feira, Dilma considerou “injustas” as críticas ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e disse que ele não poderia ser transformado em “judas”.

A corrente majoritária do PT diz que “não economizará esforços” para reunificar as forças que tornaram possível a reeleição da presidente e faz críticas ao “primado aliancista” que distanciou o PT dos movimentos sociais. “Setores dos partidos de centro, além de expressarem (...) o receio da intensificação do protagonismo popular, sinalizado pelo segundo turno da eleição presidencial de 2014, também se sentiram mais à vontade para recompor um bloco com as forças de direita em um momento de dificuldades para o PT e o governo da presidenta Dilma Rousseff”, diz a “Carta de Salvador”, em citação indireta ao PMDB. 

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