PT utiliza discurso de Dilma em lobby contra ministro da Fazenda ortodoxo

Discurso em xeque. Líderes do partido da presidente recorrem às declarações contra banqueiros usadas pela então candidata àreeleição na campanha e aos programas do horário de TV para tentar emplacar nome que não tenha ligação com o mercado financeiro

RICARDO DELLA COLETTA, ADRIANA FERNANDES, VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2014 | 02h04

O PT admite que o governo precisa reconquistar a credibilidade com o mercado financeiro, mas a escolha de um economista com perfil ortodoxo para substituir Guido Mantega no Ministério da Fazenda é rechaçada pela cúpula do partido. A avaliação de dirigentes ouvidos pelo Estado é que a nomeação de um economista muito "pró-mercado" representaria a antítese do discurso encampado durante a campanha, quando a presidente Dilma Rousseff tentou colar em seus oponentes a marca de "candidatos dos banqueiros".

Embora os petistas digam que não pretendem criar "constrangimentos" para a escolha, no que depender do PT o novo ministro da Fazenda tem nome: o ex-secretário executivo da Fazenda Nelson Barbosa, que deixou o governo em maio de 2013 após se desentender com o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. Nas palavras de um ministro do PT, Barbosa é "um ótimo economista", "ponderado" e que "ouve bastante".

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também vê Barbosa, um colaborador de seu instituto, com bons olhos. Mas nos bastidores abre possibilidade de opções ortodoxas e tem emitido sinais positivos por duas outras alternativas: o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), comenta as opções: "Os três são boas escolhas e a presidente vai poder escolher de acordo com o perfil que preferir. O Nelson Barbosa tem boa sensibilidade política e social. Ele tem um perfil muito bom de diálogo com o Congresso Nacional". Já o vice-presidente do PT, deputado José Guimarães (CE), diz que o nome deve atender o mercado, mas também outros "setores da sociedade". "Cabe à presidente escolher o novo ministro de acordo com as exigências do momento. É bom que o nome dialogue com o País, com o mercado e com os setores da sociedade."

No início do ano passado, Lula chegou a sugerir que Dilma trocasse Mantega por Meirelles. Ela nunca teve simpatia pelo ex-presidente do BC e não aceitou a proposta. Agora, Lula tem dito a interlocutores que a presidente precisa nomear alguém do mercado financeiro para acalmar os investidores num momento de crise econômica.

O comando do PT, porém, vê essa ideia com restrições. Na campanha, o partido fez duras críticas à então candidata do PSB, Marina Silva, por sua ligação com Neca Setúbal, herdeira do Banco Itaú e coordenadora do programa de governo da ex-ministra.

Parlamentares petistas destacam que Meirelles fez oposição à política anticíclica adotada pela equipe econômica no ápice da crise financeira de 2008, durante o governo Lula. Para um integrante da Executiva nacional do PT, o nome mais palatável é o de Barbosa. O argumento é que "nem pode ser só Estado nem só mercado".

Apostas com uma agenda ainda mais conservadora, como o ex-secretário do Tesouro Nacional Joaquim Levy, desagradam ainda mais ao partido. Um ministro do PT, sob a condição de anonimato, classificou Levy como "ultraortodoxo".

Em documento intitulado "Comemoração e Luta!", a corrente petista Articulação de Esquerda faz um balanço das eleições e, ao abordar os desafios do segundo mandato de Dilma, afirma que o PT precisa intervir no debate sobre a política econômica. "É preciso incidir numa das principais disputas em curso, presente durante toda a campanha e também após a vitória, entre os que defendem a retomada do crescimento via ajuste fiscal e corte nos gastos públicos contra aqueles que defendem retomar o crescimento através da redução da taxa de juros e a adoção imediata de políticas industrializantes e de investimentos para a elevação da produção."

Para acalmar investidores, Dilma pretende anunciar o novo titular da Fazenda antes da reunião da cúpula do G-20, marcada para os dias 15 e 16 de novembro, na Austrália.

Cenário. Apesar do tom otimista da campanha, auxiliares de Dilma admitem que o cenário a ser enfrentado pelo futuro ministro da Fazenda é delicado. Na equipe econômica, há uma grande preocupação com a queda de receitas, o que compromete a política fiscal e o cumprimento da meta do superávit primário. O governo não conseguirá alcançar a meta estabelecida para este ano e corre o risco de registrar o pior resultado desde 1997.

Pelo cenário adverso, a ordem no Planalto é reforçar a articulação política nos últimos meses deste ano para evitar que o Congresso aprove propostas que ampliem despesas e pressionem ainda mais as contas públicas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.