PT se alinha à política econômica de Lula mirando 2010

O desafio de disputar o Planalto em 2010 com um candidato que, pela primeira vez, não se chamará Luiz Inácio Lula da Silva está levando o PT a se alinhar estrategicamente com o presidente na política econômica, na expectativa de que o crescimento favoreça as pretensões do partido. A resolução do Diretório Nacional, que se reuniu em Salvador para o aniversário de 27 anos do PT, é afinada com Lula nos pontos mais sensíveis da agenda econômica. Não traz uma palavra sobre a questão do câmbio, não questiona as metas fiscais e não encampa a tese da mudança de comando no Banco Central. O PT aposta todas as fichas no sucesso do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). "O plano causou um impacto político e ideológico muito importante", diz a resolução do diretório, que promete mobilizações para colar a imagem do partido ao eventual sucesso do PAC. O PAC - anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 22 de janeiro deste ano - prevê investimentos de R$ 503,9 bilhões até 2010 em infra-estrutura: estradas, portos, aeroportos, energia, habitação e saneamento. O objetivo é destravar a economia e garantir a meta de crescimento de 5%. A resolução diz que todo o governo tem que estar alinhado à "política expansiva" de desenvolvimento prometida no plano. "Tem de pisar no acelerador do crescimento com distribuição de renda. É o que nos permite colar nos pobres, os que sempre ficaram de fora do desenvolvimento", resumiu o presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP). Palocci X Dirceu O silêncio do Diretório sobre o câmbio foi uma vitória do ex-ministro Antônio Palocci. Ele não foi a Salvador mas argumentou com deputados que o BC está certo em não ir além das intervenções pontuais que tem feito. Em conversas reservadas, Palocci sustenta que a oferta de dólares aumentou com a melhora do ambiente de investimentos e que o equilíbrio no câmbio será dado pelo crescimento das importações. "Criticar o BC pela valorização do real, num país onde o câmbio flutua, é coisa de quem está sem discurso econômico", desdenhou em Salvador o governador petista da Bahia, Jaques Wagner. A crítica do diretório petista ao Comitê de Política Monetária (Copom), pelo corte considerado tímido de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros, em janeiro, também está alinhada com a avaliação de Lula. Logo depois da decisão do Copom, em 24 de janeiro, Lula disse em discurso que "o Brasil não pode ter medo de crescer". Segundo um ministro petista, Lula já estaria antecipando uma crítica à ata do comitê, que trabalhou com um cenário futuro de pressão inflacionária por aumento da demanda. Parte do Copom (majoritária na decisão de janeiro) avalia, segundo essa fonte, que a situação econômica ainda não suporta um crescimento do PIB nos índices ambicionados pelo PAC, seguramente superiores a 3,5%. "Para evitar a inflação, o BC mantém um patamar elevadíssimo da taxa de juros, que ainda se situa entre os mais altos do mundo. Por essa visão, o Brasil não pode crescer, especialmente se for com investimento público", afirma a resolução do PT, em sintonia com o discurso de Lula. Ainda muito influente no PT, mesmo depois de cassado, o ex-ministro José Dirceu pediu a demissão do presidente do BC, Henrique Meirelles. O PT preferiu não "esticar a corda", apostando, como o próprio Lula, que o BC vai "sintonizar-se" com os objetivos do PAC. "Fizemos uma campanha eleitoral defendendo a política econômica do governo, que nos permitiu avançar por meio do PAC. Como é que vamos atacar o Meirelles agora?", indagou Arlindo Chinaglia. Superávit A resolução do PT também evitou outro tema que provoca discussões no partido: a redução ainda maior do superávit primário nos próximos anos. O tema foi levantado, entre outros, pelo deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), um dos principais articuladores da aliança PT-PMDB. Também nesse ponto prevaleceu a avaliação do ex-ministro Antonio Palocci, para quem dificilmente o governo conseguirá aumentar suas despesas além dos limites já ampliados na proposta do PAC. O programa de crescimento autoriza a utilização de até meio ponto porcentual do PIB em investimentos de infra-estrutura urbana e saneamento, desde que o superávit primário resultante seja de pelo menos 3,75% do PIB. Palocci considera que o esforço fiscal dos últimos quatro anos, com superávits até superiores a 4,7% do PIB, já teve um impacto "saudável" sobre a relação entre dívida e PIB. A meta do PAC, se vier a ser alcançada, não comprometeria o padrão já obtido, avaliou o ex-ministro em conversas com deputados petistas.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.