PT retira ataque pessoal do ar, mas ainda quer ''desconstruir'' Kassab

Estratégia da equipe é tentar carimbar imagem do prefeito como ?filhote do malufismo? e demarcar diferenças

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

Sob pressão de eleitores e de dirigentes do próprio PT, o comando da campanha de Marta Suplicy retirou ontem do ar o comercial com questionamentos sobre a vida pessoal de Gilberto Kassab (DEM), mas a ordem no comitê petista é insistir na estratégia de "desconstruir" a imagem do prefeito. A equipe de Marta avalia que é necessário carimbar Kassab como "filhote do malufismo", mostrar seu DNA político e imprimir tom agressivo à disputa para demarcar diferenças entre dois projetos.A tática adotada até agora, porém, desagradou a várias correntes que compõem o mosaico ideológico do PT. O comentário nos bastidores do partido é que, embora a propaganda perguntando se Kassab é casado e tem filhos tenha sido suspensa - conforme antecipou o Estado -, a questão despolitizou o debate de tal forma que promete dominar a corrida em São Paulo."Os responsáveis pela campanha da Marta deram um passo totalmente errado ao tratar da vida pessoal do prefeito", afirmou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), um dos que pediram o corte do comercial na TV. "Se tivessem pensado melhor, não teriam feito isso." Suplicy disse ter conversado com a ex-mulher sobre o assunto, na segunda-feira, e recomendado que mudasse de rota. "Tivesse Paulo Maluf perguntado a Luiza Erundina, na eleição de 1988, se ela era casada e tinha filhos, Marta seria a primeira a protestar", observou Suplicy. "De qualquer forma, ela ainda pode reverter esse quadro difícil se destacar as coisas boas que fez e suas propostas."Prefeita de São Paulo entre 1989 a 1992, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) também pediu mudanças na campanha de Marta. Solteira e sem filhos, Erundina confessou ter ficado "assustada" com o tom da propaganda do PT, que, na sua definição, foi "preconceituosa, conservadora, infeliz" e provocou constrangimento nos aliados. "Mas meu descontentamento não se refere apenas à questão sobre o estado civil do prefeito, que deu margem a insinuações sobre homossexualismo. Eu acho que ficar nesse embate agressivo é desperdício de tempo", comentou a ex-petista.DESCULPASNa avaliação de Erundina, que chegou a ser cotada para vice da chapa liderada por Marta, a eleição paulistana se transformou numa "guerra de números" e ataques sem fim. "É só quem mente, quem não mente, quantos quilômetros um fez, quanto o outro deixou de fazer. Além de não ter importância, essa discussão não contribui em nada para a mudança da cultura política", argumentou.Até mesmo o ex-ministro José Dirceu, aliado de Marta, condenou publicamente a tática adotada no segundo turno da campanha. Em seu blog, Dirceu afirmou não haver mais "nenhuma dúvida" de que foi um erro questionar a vida privada do prefeito e disse que o PT deveria pedir desculpas ao eleitor. "Como diz o ditado popular, um erro, por mais desgraçado que seja, não justifica outro. Portanto, temos que pedir desculpas e refazer a peça de campanha, retirando essa parte", escreveu o deputado cassado no escândalo do mensalão.Apesar desse senão, Dirceu elogiou a artilharia política voltada contra Kassab. Mais: insistiu em que a campanha de Marta não pode deixar que a discussão pessoal se transforme no "único debate" por parte daqueles que querem derrotar o PT nas eleições presidenciais de 2010. Para o deputado Carlos Zarattini (PT-SP), coordenador da campanha de Marta, o PT não invadiu a privacidade de Kassab. "Mas o site dele entrou, sim, na vida pessoal de Marta, foi muito ofensivo e nós vamos ingressar com ação para retirá-lo do ar", reagiu.

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