PT reivindica influência na economia no 2º mandato

Resolução defende maior participação da legenda na política econômica de Dilma

VERA ROSA E RICARDO DELLA COLETTA , O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2014 | 02h02

BRASÍLIA - Na primeira reunião após a reeleição da presidente Dilma Rousseff, a Executiva Nacional do PT cobrou maior influência do partido no segundo mandato - incluindo os rumos da política econômica -, pregou o "controle" do Banco Central, a regulamentação da mídia e um discurso mais à esquerda. Em resolução aprovada nessa segunda-feira, 3, a cúpula petista também defendeu temas que não contam com a simpatia do Planalto, como o fim do fator previdenciário e a jornada de 40 horas semanais, sem redução dos salários.

"O PT deve buscar participar ativamente das decisões acerca das primeiras medidas do segundo mandato, em particular sugerir medidas claras no debate sobre a política econômica, sobre a reforma política e em defesa da democracia nos meios de comunicação", diz um trecho da resolução, antecipada pelo estadão.com.br. "É preciso incidir na disputa principal em curso neste início do segundo mandato: as definições sobre os rumos da política econômica."

A portas fechadas, dirigentes do PT disseram que será preciso pressionar Dilma para ouvir o partido, dialogar com movimentos sociais, aprovar a "democratização" dos meios de comunicação e fazer mudanças na economia. Embora a presidente esteja disposta a montar um governo "mais Dilma", sem ceder a pressões, o PT fará de tudo para ter voz ativa.

"Nós vamos pressionar o governo. Queremos também discutir fator previdenciário e nova correção da tabela do Imposto de Renda, e achamos que polêmica e atrito são normais", disse Jorge Coelho, um dos vice-presidentes do PT. "O PT precisa estar mais perto do governo e a presidente Dilma, mais perto do PT", emendou o secretário-geral do partido, Geraldo Magela. Para o ministro das Relações Institucionais, Ricardo Berzoini, que participou do encontro de ontem, o partido terá agora o desafio de "unir a base aliada" no Congresso, se não quiser sofrer novas derrotas.

A escolha do ministro que substituirá Guido Mantega na Fazenda também é vista como primordial pelo comando da legenda. Apesar de o economista Nelson Barbosa ser o preferido por nove entre dez petistas para o cargo, deputados do PT chegaram ontem a elogiar o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, o primeiro indicado por Luiz Inácio Lula da Silva para a cadeira de Mantega.

A resolução aprovada pela Executiva, no entanto, deixou claro que, no governo Dilma, o BC não terá autonomia. No item 6, os petistas pregam o "controle democrático e republicano sobre as instituições que administram a economia brasileira, entre as quais o Banco Central, a quem compete, entre outras missões, combater a especulação financeira".

O presidente do PT, Rui Falcão, disse que o PSDB do candidato derrotado, Aécio Neves, tentou criar um "factoide" quando pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma auditoria sobre os resultados das eleições. Foi um tom mais ameno do que o contido no documento que passou pelo crivo da Executiva, para quem a oposição caiu no "ridículo" com o pedido.

Nas ruas. Falcão evitou atacar com mais ênfase as manifestações que pediram o impeachment de Dilma e até a intervenção militar no País. "Numa democracia, os movimentos e a participação de setores da população, ainda que minoritários, são legítimos", afirmou. "Mas nós também estamos conclamando nossa militância em atos de defesa da democracia e da reforma política."

O PT criou nessa segunda uma comissão para preparar a festa de posse de Dilma, em 1.º de janeiro. O plano é fazer uma festa popular, resgatando o sentimento de "esquerda", após uma disputa definida como "duríssima".

Na reunião, dirigentes lembraram que todos precisam se debruçar sobre o motivo da rejeição à sigla escancarado nessas eleições. Numa autocrítica, a resolução diz que o PT precisa "retomar sua capacidade de fazer política cotidiana, sua independência frente ao Estado" e "ser muito mais proativo no enfrentamento das acusações de corrupção, em especial no ambiente dos próximos meses em que setores da direita vão continuar premiando delatores".

Na campanha, o PT e o governo sofreram desgaste após a série de denúncias do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef, que apontaram um esquema de desvio de recursos na estatal para favorecer aliados do governo. O nome do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi citado como operador do esquema.

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