''PT precisa de juízo nas alianças'', diz Carvalho

Ex-seminarista, chefe de gabinete de Lula reza todo dia pelo governo e é o nome mais cotado para presidir o PT e coordenar a campanha de Dilma

Vera Rosa, O Estadao de S.Paulo

04 de abril de 2009 | 00h00

Todo dia bem cedo, antes do expediente, o chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, lê uma oração e um trecho da Bíblia. Ex-seminarista, o homem de estilo conciliador que é pressionado por petistas a disputar o comando do PT, em novembro, pede proteção ao governo desde o primeiro mandato. Testemunha privilegiada dos bastidores do Planalto, Carvalho vive um momento de transição: um dos principais auxiliares de Lula, ele já ajuda a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a articular a campanha à Presidência, em 2010, mas diz que o PT precisa de "juízo", se quiser continuar no poder."O PT deve ter juízo e clareza para compreender, na hora de fechar alianças, que os interesses nacionais prevalecem sobre os regionais", afirma ele, numa referência à necessidade de sacrificar candidatos-lanterninha em nome de palanques fortes para Dilma. A prioridade é a coligação com os partidos que integram a aliança governista, embora haja Estados, como o Rio Grande do Sul, onde o PT e o PMDB são inimigos históricos.Apesar de suas articulações e conselhos ao PT, Carvalho ainda espera autorização de Lula para deixar o cargo e mantém a discrição ao falar do assunto. "Por mim eu ficaria onde estou, mas não posso me negar a atender a um pedido do partido, caso o presidente me libere. Devo tudo o que sou ao PT", insiste o chefe de gabinete.Antes de sua viagem internacional, porém, Lula embaralhou o jogo: garantiu ao assessor que a corrente de ambos no PT - o antigo Campo Majoritário, rebatizado de Construindo um Novo Brasil - deveria arrumar outro nome para dirigir o partido. "Baixinho, fique tranquilo! Você vai ficar comigo", assegurou o presidente. Inconformados, ministros, senadores e deputados já preparam um abaixo-assinado para pedir a Lula que reveja sua posição.Amigo de Carvalho há três décadas, Lula o apelidou de "Baixinho" por causa de sua estatura: 1,60 metro de altura. Dono de fala mansa e gestos calmos, esse aquariano de 57 anos é, por sua vez, um dos poucos que chamam o presidente de "Lula" e tem paciência para negociar com o emaranhado de tendências do PT. Foi secretário-geral do partido nos anos 90 e era braço direito do então prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em 2002, quando se preparava para coordenar o programa de Lula.No escândalo do mensalão - o terremoto político que abalou o Planalto e dizimou a cúpula do PT, em 2005 -, Carvalho redobrou não apenas as orações como as atividades: cumprindo uma rotina de 14 horas diárias, conseguiu organizar uma frente de apoio ao governo nos movimentos sociais e em setores da Igreja. Em dezembro de 2006, com Lula já reeleito, ele respirou aliviado. Ao entrar no gabinete do presidente, não se conteve e desabafou: "Hoje é o último dia útil desse governo. Deus seja louvado!"CICATRIZESAgora, se Lula der sinal verde para sua candidatura, ninguém no PT duvida que ele vencerá. A eleição na seara petista tem importância estratégica porque o novo presidente do PT coordenará a campanha de Dilma. Uma disputa pelo comando do PT, no fim deste ano, escancararia a divisão no partido e deixaria cicatrizes às vésperas da corrida ao Planalto, a primeira sem Lula na chapa."Todos gostaram quando souberam que Gilberto Carvalho pode ser candidato", atestou o ministro da Justiça, Tarso Genro, do grupo Mensagem ao Partido. Tarso apóia o deputado José Eduardo Martins Cardozo (SP), atual secretário-geral do PT, que se inscreveu para a sucessão do colega Ricardo Berzoini (SP). O grupo admite, no entanto, retirar Cardozo do páreo e fechar acordo em torno de uma chapa única liderada por Carvalho."Ele é quase uma unanimidade", resume o ex-governador do Acre Jorge Viana (PT), que preside a Helibrás e também teve o nome lembrado para a cadeira de Berzoini. "É próximo de Lula, tem militância partidária, acumulou enorme vivência no governo e é um grande articulador político.??Sem alarde, Carvalho tem apagado incêndios nas fileiras petistas. Na queda-de-braço com o PMDB pelo comando do Senado, por exemplo, ele chamou o senador Tião Viana (PT-AC) ao Planalto e ordenou o cessar fogo: pediu ao petista que parasse de bombardear o colega José Sarney (PMDB-AP) e o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. "Gilberto me fez um apelo e vou cumprir o prometido", disse Tião à época. A trégua, porém, durou pouco.Longe dos holofotes, as atribuições de Carvalho passam pelas mais variadas missões: ele não apenas participa de todas as audiências com o presidente como cuida de sua agenda, do cerimonial, das viagens, faz o meio de campo com o PT e outros partidos da base aliada no Congresso e conversa até com políticos da oposição. "Ele já me recebeu muito bem e foi muito educado comigo", conta o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM).Alvo de escutas telefônicas, Carvalho teve conversas grampeadas em investigações da Polícia Federal, mas diz nada ter a temer. Ainda assim, considera "gravíssima" a bisbilhotagem de seus diálogos. "Não por mim, mas porque estou na antessala do presidente", argumenta. "Eu não tenho tanto importância assim", emenda, com seu jeito humilde. Pai de três jovens, Carvalho só tem um plano fora da política: adotar uma criança. De olho nesse objetivo, está há mais de três anos na fila. À espera do novo filho.

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