PT poupa Vaccari para evitar desgaste ao governo e à sigla

Punição ao tesoureiro do partido poderia soar como admissão de que houve arrecadação ilegal para campanha de Dilma

VERA ROSA , ANDREZA MATAIS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

15 de março de 2015 | 02h06

Acusado por delatores da Operação Lava Jato de arrecadar dinheiro do esquema de corrupção da Petrobrás para o PT, João Vaccari Neto tem sido poupado pelo partido que, apesar do desconforto, não cogita substituí-lo no cargo ou expulsá-lo. A avaliação interna é que a degola do secretário de Finanças, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seria o mesmo que admitir a denúncia de ex-executivos da estatal de arrecadação ilegal para a campanha da presidente Dilma Rousseff, em 2010.

O tratamento dado a Vaccari contrasta com o recebido por Delúbio Soares, o tesoureiro do PT que foi submetido à Comissão de Ética e expulso do partido quatro meses após ser acusado no mensalão, em 2005. Somente em 2011, depois de muita pressão, Delúbio foi anistiado. No ano passado, o então deputado André Vargas, que foi secretário de Comunicação do PT e acabou cassado pela Casa, desfiliou-se após ameaça de expulsão, 25 dias depois de revelada sua relação com o doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores da Lava Jato.

Acusação. As denúncias contra Vaccari no esquema da Lava Jato apareceram há cinco meses. Desde então, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa e o ex-gerente Pedro Barusco o acusaram de receber entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões de empresas que fechavam contratos com a estatal para o PT. Ao menos US$ 300 mil teriam financiado a campanha de Dilma em 2010.

Quando estourou o escândalo do desvio de recursos na Petrobrás, Vaccari foi questionado em reuniões da Executiva e do Diretório Nacional do PT. "Nunca operei com Paulo Roberto", disse. Ministros petistas tiveram também uma conversa reservada com ele, para saber se o governo poderia ficar tranquilo. Vaccari assegurou que sim.

"O PT não é Polícia Federal para investigar. Quem faz delação premiada precisa oferecer prova, e isso não existe", disse Vaccari. Em 5 de fevereiro, véspera da festa de 35 anos do PT, a PF fez busca e apreensão na casa de Vaccari, que foi levado para prestar depoimento, em São Paulo.

O tesoureiro assumiu o caixa do partido em 2010, indicado por Ricardo Berzoini, hoje ministro das Comunicações. Há rumores de que Vaccari era um arrecadador informal no período entre a expulsão de Delúbio e sua nomeação como tesoureiro do partido. Entre 2005 e o início de 2010, as finanças do PT ficaram oficialmente nas mãos do gaúcho Paulo Ferreira, ex-deputado federal.

Integrante da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), majoritária no PT, Vaccari também tem desafetos no partido. Um deles é o deputado estadual Edinho Silva, que foi tesoureiro do comitê da reeleição de Dilma. O outro é o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.

Desde que assumiu as contas do PT, Vaccari fez um "ajuste fiscal" no partido. "Virou um 'mãos de tesoura', do tipo Joaquim Levy", contou um amigo dele, numa referência ao ministro da Fazenda. Sob sua gestão, as reuniões do partido ficaram mais curtas, para economizar em diárias de hotéis e refeições, e ele ganhou fama de "pão duro".

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