Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

PT planeja abrir mão de doação de empresas

Desgastado pela Lava Jato, partido tentará compensar perda com recursos de filiados

Ricardo Galhardo, Ana Fernandes, José Roberto Castro, O Estado de S. Paulo

30 de março de 2015 | 22h11

SÃO PAULO - As principais correntes internas do PT estão próximas de um acordo que prevê a proibição de instâncias do partido receberem doações de empresas privadas. O PT pretende compensar a perda criando uma ferramenta digital para coleta de doações dos mais de um milhão de filiados. Pela proposta, candidatos do partido a cargos eletivos estão liberados para receber doações privadas, mas assumirão totalmente a responsabilidade pela origem dos recursos.


A proibição faz parte da tese elaborada pela corrente Mensagem ao Partido para a segunda etapa do 5.º Congresso Nacional do PT, marcado para junho. Conta com o apoio do Movimento PT, segundo maior corrente interna da legenda, dos presidentes dos 27 diretórios estaduais reunidos nesta segunda-feira, 30, em São Paulo e de lideranças importantes, como o presidente nacional do PT, Rui Falcão, e o assessor especial da Presidência da República Marco Aurélio Garcia.


A ideia surgiu na semana passada, depois que o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, se tornou réu da Operação Lava Jato. Vaccari é acusado de receber propinas de empresas fornecedoras da Petrobrás em forma de doações legais ao partido e seus candidatos. Ele nega as acusações. 


Um alto dirigente do partido, favorável à proibição, argumentou que, se na leitura da oposição, financiamento privado é “propina” apenas para o PT, enquanto para os demais é “doação legal”, então, segundo o dirigente, a melhor saída é mesmo acabar de vez com “essa palhaçada”.


A proposta amadureceu nesta segunda, durante reunião entre o ex-presidente Lula, a executiva nacional do PT e os presidentes dos 27 diretórios estaduais do partido. Entre as principais forças políticas internas, apenas um setor da corrente majoritária Construindo Um Novo Brasil (CNB) resiste à ideia. Segundo relatos, durante a reunião desta segunda, apenas a secretária de Relações Internacionais, Monica Valente, mulher do ex-tesoureiro Delúbio Soares, preso por envolvimento no mensalão, foi contra a proposta. 


“Não tem consenso nisso”, disse ela, de acordo com participantes da reunião. Embora seja pessoalmente favorável ao fim das doações empresariais, Falcão foi cauteloso. “Ainda tem muita dúvida sobre isso, pois os outros partidos vão continuar recebendo”, disse ele.


Afastamento. A possibilidade de afastamento de Vaccari foi defendida na saída pelo ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, mas não foi tema da reunião. Para alguns participantes, o silêncio de Lula sobre o tesoureiro foi interpretado como um recuo do ex-presidente na defesa de Vaccari.


O encontro ocorreu em um hotel na região Sul de São Paulo a portas fechadas. Por determinação de Lula, todos participantes tiveram que deixar os celulares na entrada do salão. Lula reclamava de quem saía para ir ao banheiro e pedia insistentemente que a porta fosse mantida fechada. De acordo com relatos, o ex-presidente fez um discurso ensaiado no qual apontou quatro crises a serem enfrentadas pelo governo e pelo PT: corrupção, política (relação com a base no Congresso), econômica e de comunicação.


O ex-presidente chegou a usar de ironia diante de avaliações positivas de alguns dirigentes estaduais. “Ouvi os informes de todos os Estados, gostei muito, mas tem gente que está mentindo”, disse Lula.


Antes da reunião, os convidados ouviram uma explanação do novo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro. Segundo o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, o encontro foi marcado antes de Janine ser chamado pelo Planalto. Um dos convidados era o ex-ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, investigado na Lava Jato.

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