Benedito Salgado|Estadão Conteúdo
Benedito Salgado|Estadão Conteúdo

Partido perde hegemonia na esquerda

Estudo da Fundação Perseu Abramo, ao qual o ‘Estado’ teve acesso, indica que imagem de que a sigla ‘veste a camisa’ do povo ficou abalada

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

Quando a presidente Dilma Rousseff deixar o Palácio do Planalto, hoje, o PT terá perdido mais do que a Presidência da República. A sigla que em 36 anos de existência e 13 de governo se transformou no “maior partido de esquerda do mundo depois do PC chinês”, segundo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, já não terá nem mesmo a hegemonia dentro da esquerda brasileira e pode chegar às eleições de 2018 na situação inédita de ser obrigada a apoiar um candidato de outra legenda, admitem alguns de seus cardeais.

Estudiosos, dirigentes e petistas históricos avaliam que a partir de amanhã o PT será forçado a negociar de forma mais flexível com partidos como PSOL e PC do B, movimentos sindicais e os coletivos da nova esquerda, antes tratados como linha auxiliar.

“O PT perdeu a hegemonia da esquerda. Para se transformar em um partido de oposição neste novo cenário, vai ter que compartilhar um espaço que até agora era só dele e discutir se, no caso de Lula não se viabilizar em 2018, vai apoiar um candidato de outro partido como Ciro Gomes (PDT)”, avalia o jornalista Celso Marcondes, diretor do Instituto Lula.

Marcondes se refere à possibilidade de Lula ser impedido de disputar as eleições de 2018 por causa das investigações da Operação Lava Jato. Além disso, o partido terá de lidar com as sequelas do fracasso político e econômico do segundo mandato de Dilma, o sentimento antipetista que permeia todas as faixas do eleitorado, a iminência de uma derrota fragorosa nas eleições municipais deste ano, a continuidade e desdobramentos da Lava Jato, a debandada de prefeitos e vereadores e as ameaças de fragmentação da bancada petista na Câmara dos Deputados, onde um grupo ameaça aderir ao governo Michel Temer e outro busca há meses saídas à esquerda do PT.

O tamanho do abismo que aguarda o partido foi dimensionado em novembro do ano passado pela Fundação Perseu Abramo em uma ampla pesquisa quantitativa e qualitativa, inédita, restrita até mesmo entre dirigentes petistas, à qual o Estado teve acesso. Tristeza, decepção, vergonha, revolta, surpresa, frustração, desespero e insegurança estão entre as palavras usadas pelos entrevistados para se referir à legenda.

“Independente da versão que se conte há uma só certeza: o governo Dilma, especialmente, pelas medidas econômicas adotadas, acabou por denegrir a imagem do PT enquanto um partido que ‘veste a camisa’ do povo”, diz o levantamento. Detalhe: apenas eleitores que votaram em Dilma em 2014 participaram dos grupos da pesquisa qualitativa.

Isso faz com que velhos conhecedores do PT, como o sociólogo Francisco de Oliveira, professor emérito da USP, façam prognósticos pessimistas sobre o futuro da legenda. “O PT vai continuar existindo como um partido qualquer que disputa eleições. Como alternativa revolucionária, já era”, afirmou Oliveira.

Diagnóstico. Em um quadro comparativo, os entrevistados pela Fundação Perseu Abramo se referiram ao PT antes do governo como “progressista, convincente, esperançoso, promissor, de futuro, realizador, forte, evolutivo, em ascensão, limpo, ótimo, sólido e do povo”. Hoje é um partido “de direita, desacreditado, decepção, fracassado, sem expectativa, quebrado, deprimente, massacrado, desmoralizado, corrupção, ruim, dividido e traidor”.

Diante do diagnóstico, o resultado da pesquisa foi restrito até mesmo entre integrantes da executiva nacional do PT. O Estado teve acesso exclusivo às aproximadamente 400 páginas do levantamento.

O PT caiu no ranking de preferência partidária de 28% em maio de 2014 para 14% em novembro de 2015. A rejeição ao PT aumentou de 18% para 32%. Em março de 2013, 52% dos eleitores diziam que o PT era o partido que defendia os brasileiros, agora são apenas 14%. O porcentual de pessoas que viam o PT como o partido das reformas caiu de 43% para 9%.

A sensação de que o PT piorou no governo prevalece até entre os eleitores da legenda, 53%, e quase a metade dos entrevistados, 46%, defendeu a extinção do partido. O sentimento negativo quanto à honestidade dos petistas é de 72% enquanto o positivo é de apenas 13%.

Para a maioria dos entrevistados, o PT “puro” é uma imagem do passado. O que se vê hoje é uma legenda igual às demais, atolada em denúncias de corrupção. “À corrupção se atribui a origem de toda crise ora vivenciada. De modo difuso entende-se que o partido foi se perdendo ao longo do tempo. Fez alianças que contrariam seus princípios de origem e ‘entregou-se à ganância’, colocando interesses pessoais – leia-se enriquecimento ilícito – acima dos interesses do povo e, consequentemente, traindo o ideário do próprio partido. Tornou-se um partido igual a todos os outros. E, nesse processo, perdeu sua identidade e a confiança dos brasileiros”, conclui a pesquisa.

Futuro. Apesar do quadro sombrio, a pesquisa mostra uma luz no fim do túnel quando aborda os “anos dourados” do governo Lula. A quase totalidade dos entrevistados associa os governos do petista a crescimento econômico e estabilidade política. Quando lembrados da era Lula, vários deles admitem a possibilidade de voltar a apoiar o PT.

“Lula já está na história do Brasil. Foi o único presidente do povo. E que governou para o povo”, diz um entrevistado de classe baixa, entre 20 e 28 anos, de Porto Alegre.

“Foi uma revolução. A revolução francesa que fizeram lá aqui foi no governo Lula”, diz outro, de classe média baixa entre 19 e 26 anos, do Rio de Janeiro.

Para dirigentes do partido, a saída é uma volta às origens que passa pela depuração dos quadros partidários, abandono de práticas como o caixa 2 eleitoral, reconexão com os movimentos sociais e a aproximação com a chamada “nova esquerda pós-materialista”.

“Surgiu na sociedade brasileira uma nova energia que é muito mais ampla do que o PT. O PT vai ter que ter a sabedoria de saber trabalhar com isso, vai precisar de humildade para não encerrar isso no PT. Até porque não cabe. O PT tem que entender que é um integrante e não o condutor. A forma como vamos lidar com isso está em aberto”, disse o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gilberto Carvalho.

Para ele, o impeachment é o fim de uma era. “Essa crise marca o fim da ilusão da ambiguidade com padrão de relacionamento com o setor empresarial. Temos que ter relações, mas não a ilusão de que somos amigos. Não estou falando em relação hostil, mas que existem diferenças e sobretudo dos padrões de relacionamento que causam dependência”, afirmou.

O economista Marcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que o PT reage melhor a situações de crise e pode se revigorar no papel de oposição a Temer.

“Nos períodos de calmaria a atuação do PT foi sem grandes ousadias, ao contrário dos períodos de turbulência. O PT tem a oportunidade inédita de se reinventar. Nesta disputa, por incrível que pareça, houve um fortalecimento porque o que existe hoje é o PT e as forças contra o PT. Isso vai fortalecer o PT. Se de fato ocorrer a aprovação do impeachment, o PT vai para a oposição que é onde ele foi construído”, disse Pochmann.

Em uma reunião do diretório nacional do PT no dia 19 de abril, dois dias depois da aprovação da abertura do processo de impeachment pela Câmara, Lula defendeu uma saída radical. “A elite nos empurrou de volta à luta de classes. Não fomos nós que pedimos”, afirmou.

O partido, no entanto, esbarra em dificuldades de ordem prática para voltar às raízes. A primeira delas é o emaranhado de alianças pragmáticas feitas em nome do crescimento eleitoral ou da governabilidade. Hoje o PT integra diversos governos comandados por ex-aliados como o PMDB, e vice-versa. Na prática, o PT vai ter de escolher entre a volta às raízes e seus interesses eleitorais. Os fatos indicam que a segunda opção deve prevalecer. Pressionada por interesses locais, a direção não vai proibir alianças com partidos que votaram a favor do impeachment de Dilma.

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