Gabriela Biló/ESTADÃO
Gabriela Biló/ESTADÃO

Partidos repudiam desfile e presidente da CPI diz que ameaça é de 'um fraco que sabe que perdeu'

Em nota conjunta, PT, PDT e mais sete partidos afirmam ser inaceitável que as Forças Armadas sejam usadas em tentativa de constranger o Congresso; para presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz, desfile foi patético

Sofia Aguiar e Daniel Weterman, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2021 | 09h47

Nove partidos divulgaram nesta terça-feira, 10, uma nota conjunta de repúdio ao desfile militar ocorrido nesta manhã em Brasília. Segundo o texto, diante das sucessivas acusações do presidente Jair Bolsonaro contra os Poderes e da votação da proposta do voto impresso também nesta terça pela Câmara "o desfile é uma clara tentativa de constrangimento ao Congresso Nacional". Parte dos integrantes da CPI da Covid também reagiu. Para o presidente do colegiado, senador Omar Aziz (PSD-AM), o ato foi "lamentável" e configura uma "ameaça à democracia". Segundo ele, o País não vai ceder a "arroubos golpistas".

Aziz, no entanto, minimizou os eventuais efeitos do desfile. "Todo homem público, além de cumprir suas funções constitucionais, deveria ter medo do ridículo, mas Bolsonaro não liga para nenhum desses limites, como fica claro nessa cena patética de hoje. Ela mostra apenas a ameaça de um fraco que sabe que perdeu", disse Aziz ao ler um pronunciamento na abertura da reunião da CPI.

O presidente e diversos ministros acompanharam o desfile sem a presença de representantes de outros Poderes que, apesar de chamados, não compareceram. Tanques e blindados passaram pela Praça dos Três Poderes e pararam diante do Palácio do Planalto para que um oficial entregasse um convite a Bolsonaro para que ele acompanhasse, no próximo dia 16, um exercício tradicional da Marinha,  chamado de Operação Formosa.

Durante o evento, um manifestante chegou a entrar na frente do comboio para tentar impedir que os blindados avançassem, mas foi rapidamente retirado pelos agentes que participavam do ato.  Para Aziz, um ato foi "lamentável" e não resultará no desejo de Bolsonaro: a aprovação, pelo Congresso, do voto impresso. "Não haverá voto impresso, não haverá nenhum tipo de golpe contra a nossa democracia. As instituições, Congresso à frente, não deixarão que isso aconteça. A democracia tem instrumentos para defender a própria democracia contra arroubos golpistas. Agressões à Constituição não são legítimas. Defender golpe não é aceitável. E defender o fim da democracia precisa ser punido com o rigor da lei. Nós, os democratas, estamos aqui a postos para defender a democracia e o nosso País com os instrumentos que a Constituição nos confere", destacou Aziz.

Durante a abertura de sessão desta terça no colegiado,o presidente da CPI afirmou ainda que a comissão continuará mostrando o "desmando" do governo federal na condução da pandemia no Brasil. A investigação aponta para um esquema de corrupção na gestão Bolsonaro e uma demora deliberada na compra de vacinas.

A fala do presidente foi acompanhada por outros membros da CPI, que também criticaram o ato patrocinado pelo governo e a cúpula militar. “O que vimos hoje foi uma cena ridícula, um lamentável espetáculo circense”, disse o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP). “O que importa são os esquemas de corrupção que essa comissão está descobrindo.”

Os senadores ainda destacaram que o Senado Federal pretende votar ainda nesta terça uma Lei de Defesa do Estado Democrático, a fim de punir quem ameaça ou incita ataques às instituições brasileiras.

Partidos reagem

Assinada por nove partidos, entre eles o PT, PDT e PSB, a nota conjunta divulgada nesta terça afirma que "estranhamente, e diferente das edições anteriores, é a primeira vez que o convite é feito com um ostensivo e desnecessário desfile de blindados militares, injustificável e reprovável por várias razões de interesse sanitário público".

As siglas dizem ainda que "é inaceitável que as Forças Armadas permitam que sua imagem seja exposta desta maneira, usada para sugerir o uso de força em apoio à proposta antidemocrática e de caráter golpista, defendida pelo presidente da República".

Na mesma nota, os partidos também repudiam a aglomeração promovida pelo evento em momento de combate à covid-19. "Neste momento em que o Brasil acumula a trágica marca de quase 600 mil mortes, não tem sentido expor pessoas, inclusive os militares, promover aglomeração e gastar recursos públicos com tal atividade", diz o texto. 

"O povo não quer ver desfile de tanques de guerra, quer vacina no braço, respeito à democracia e instituições e governantes que trabalhem para gerar empregos e para acabar com a fome no País", acrescenta.

A nota é assinada pelo PSB, PCdoB, PDT, PT, REDE, PSOL, PSTU, Solidariedade e Unidade Popular. Confira a íntegra abaixo:

“Partidos repudiam tentativa de constrangimento ao Congresso Nacional e ao povo"

Um comunicado oficial do Ministério da Marinha anunciou a realização de um desfile de blindados, acompanhado de sobrevoos pela Esplanada, em Brasília, nesta terça-feira, tendo como destino o Palácio do Planalto.

O motivo alegado é marcar a entrega a Bolsonaro e ao ministro Walter Braga Netto (Defesa) de um convite para que as autoridades acompanhem um tradicional exercício da Marinha previsto para 16 de agosto, em Formosa (GO).

Em meio às sucessivas declarações golpistas de Bolsonaro, e da votação do projeto do “voto impresso” nesta mesma terça-feira, com previsão de derrota, o desfile é uma clara tentativa de constrangimento ao Congresso Nacional.

Estranhamente, e diferente das edições anteriores, é a primeira vez que o convite é feito com um ostensivo e desnecessário desfile de blindados militares, injustificável e reprovável por várias razões de interesse sanitário público.

Neste momento em que o Brasil acumula a trágica marca de quase 600 mil mortes, não tem sentido expor pessoas, inclusive os militares, promover aglomeração e gastar recursos públicos com tal atividade.

É inaceitável, ainda, que as Forças Armadas permitam que sua imagem seja exposta desta maneira, usada para sugerir o uso de força em apoio à proposta antidemocrática e de caráter golpista, defendida pelo presidente da República.

O Brasil ainda está em guerra contra o coronavírus, embate agravado pela variante Delta, pelo desemprego e pela fome, o que exige de toda a sociedade compromisso com a defesa dos verdadeiros interesses dos brasileiros.

O povo não quer ver desfile de tanques de guerra, quer vacina no braço, respeito à democracia e instituições e governantes que trabalhem para gerar empregos e para acabar com a fome no país.

Brasília, 10 de agosto de 2021.

PSB, PCdoB, PDT, PT, REDE, PSOL, PSTU, Solidariedade e Unidade Popular

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