PT não tem plano B

Os fatos e as fotos que registraram a passagem de Luiz Inácio da Silva no último dia de Dilma Rousseff no exercício da Presidência da República, disseram mais que todas as análises de especialistas e discursos de petistas sobre o futuro do partido, em sua volta para a oposição e a necessidade de encontrar o cominho do recomeço a partir da estaca zero.

Dora Kramer*, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2016 | 03h00

O silêncio, o retraimento e o semblante desolado do ex-presidente no dia fatídico – para não dizer “histórico”, devido à banalização do termo –, tanto podiam ser vistos como sinais de desnorteio quanto serviriam para traduzir a consciência de que, ao fim e ao cabo, foi ele o grande responsável pelo fim melancólico de um ciclo de glórias. 

“Não merecíamos isso”, parecia querer dizer diante da derrota arrasadora de um partido que se acostumou a colecionar vitórias. Na realidade, os petistas não precisariam estar passando por isso, caso tivessem preparado as respectivas cabecinhas para assumir o poder. Partindo do princípio de que é algo que se exerce com moderação, principalmente quando se tem muito dele à disposição. O abuso dessa preciosa matéria-prima, nas democracias, leva à perdição.

Se o constrangimento de Lula, praticamente escondido atrás de Dilma (sua genial invenção) quando iam ao encontro do povo na saída do Palácio do Planalto em clima muito diferente daquele de saudação nacional de janeiro de 2003, decorria da constatação realista sobre os motivos da derrocada, melhor para ele e seu partido. Há boas chances de recuperação. Afinal, o PT não é um agrupamento de venais. É, antes, uma agremiação que se deixou tomar pelas venalidades da ambição, do DNA firmado na lógica do atrito e pela ideia equivocada de que ao governante vencedor de eleições tudo é permitido.

Agora, a questão não é nem só para onde ir, mas como ir. Seria exagero dizer que o PT acabou, mas é fato que se colocou na trajetória descendente de legendas que se perderam ao longo do tempo. Um exemplo (sempre guardadas as proporções) é o ex-poderoso PFL, hoje reduzido a um acanhado DEM que tentou, mas não soube se reinventar ao querer se livrar da má fama de fisiológico, coronelista e obsoleto. 

Dos 91 deputados federais que tiveram no seu auge (a eleição de Lula), os petistas têm hoje 57. Dos 148 deputados estaduais eleitos com Dilma em 2010, restam 96. O número de prefeitos caiu de 818 (em 2004) para 544. Os vereadores aumentaram expressivamente (de 1.977 em 2002 para 5.185). Há, no entanto, uma eleição municipal pela frente na qual todos os partidos terão dificuldades por causa do fim das doações de pessoas jurídicas, mas ao PT vão se apresentar obstáculos adicionais.

A maior delas decorrente da perda do poder central e, com ela, dos instrumentos de mobilização do eleitorado dos pequenos municípios e, nas grandes cidades e capitais, da crescente rejeição ao discurso (aliás, qual?) petista. Raros também serão os candidatos e partidos dispostos a fazer alianças com o PT, que terá um baque em suas contas com o fim do dízimo recolhido dos filiados postos em cargos de confiança. Isso sem falar nos presumíveis efeitos da Lava Jato. 

O horizonte não é favorável e as ideias até agora lançadas para o PT se reorganizar indicam a falta de um plano B delineado para atuar como oposição. Das hipóteses cogitadas – caravanas de Lula para animar a militância, montagem de um gabinete de resistência no Palácio da Alvorada, denúncia do “golpe” e não reconhecimento da legitimidade do governo Temer, organização de uma frente de movimentos sociais, defesa de novas eleições já, entre outras – todas foram testadas e devidamente fracassadas enquanto o PT estava no comando e na posse do direito de manejar recursos públicos.

Por mais razão não é crível que o partido consiga executá-las depois de apeado do poder.

*Dora Kramer escreve às quartas-feiras e aos domingos

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