PT já teme os efeitos da crise financeira

Partido quer evitar que queda em indicadores econômicos alimente discurso de oposicionistas

Marcelo de Moraes, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Preocupados com os efeitos políticos da crise econômica internacional, parlamentares do PT já trocam idéias com os principais integrantes do governo federal para enfrentar o problema e impedir o crescimento do discurso de oposição dentro do Congresso. A maior preocupação dentro do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é evitar que haja queda acentuada no nível de emprego nos próximos meses, o que poderia resultar em um custo político com reflexos eleitorais em 2010.Há o receio de que uma redução brusca nos postos de trabalho possa se transformar numa grande bandeira política da oposição, especialmente num momento em que o governo vem batendo recordes na geração de empregos. Na troca de informações com integrantes da equipe econômica, os parlamentares reconhecem que a boa condução da economia nacional evitou que o País enfrentasse já no fim deste ano efeitos pesados da crise.Mas admitem que é preciso mensurar com cuidado o tempo que esse problema vai durar. Os cenários não são positivos, já que o mais otimista prevê dificuldades durante todo o próximo ano, com expectativa de recuperação apenas em 2010. Para os petistas, entretanto, é preciso que se trace uma estratégia partidária para impedir que a crise prejudique até a aprovação dos projetos de interesse do governo dentro do Congresso."Em primeiro lugar, precisamos fazer um diagnóstico mais preciso sobre a real dimensão dessa crise e tentar avaliar o seu alcance", diz o deputado João Paulo Cunha (PT-SP). "Mas precisamos também ter bastante atenção com a base aliada, para evitar que ela se disperse, contaminada por um eventual clima de dificuldades externas. E aí tudo fica difícil de votar. Nesse sentido, temos feito gestos importantes para o PMDB, como no apoio dado à candidatura do deputado Michel Temer (PMDB-SP) à presidência da Câmara", completa. Esse clima de turbulência política já foi visto nas tentativas de votação da proposta de reforma tributária na Câmara. A oposição, que diz não concordar com o projeto por entender que ele provocará perdas para Estados como São Paulo e poderá representar aumento de carga tributária, entrou em obstrução contra a proposta. E o governo já não teve forças para superar o obstáculo. Com vários governadores mobilizando as bancadas estaduais contra a reforma, líderes aliados já se conformaram com o adiamento da discussão para 2009. No Senado, pressionado pelo senador petista Paulo Paim (RS), que lidera um movimento por concessão de maiores benefícios para os aposentados, o governo passou a admitir mudanças nos benefícios. O gesto é uma tentativa de abrir negociação para evitar a aprovação de medidas com grande impacto nas contas públicas. Se tivesse a base tranqüila, o governo nem sequer pensaria em abrir uma negociação desse tipo.Para os petistas, entretanto, a preocupação imediata é que o governo não perca de alcance o efeito da provável da queda no emprego. A expectativa é de que o crescimento da oferta de trabalho sofra interrupção, embora deva se sustentar nos próximos dois ou três meses com o aquecimento do período de Natal. "A maior conquista do governo Lula, sem dúvida, foi a geração de tantos empregos", diz o deputado Paulo Rocha (PT-PA). "Acho que o governo estará num bom caminho de ação se, durante a crise, incentivar empresas que são responsáveis pela maior geração de empregos. Porque o emprego é a nossa primeira preocupação numa crise desse tipo." Mesmo com indicadores favoráveis à geração de postos de trabalho, os petistas sabem que essa situação tende a se desfazer em pouco tempo. Empresas importantes, capazes de abrigar grande quantidade de mão de obra, começam a exibir o impacto sofrido com a crise. A ArcelorMittal, maior grupo siderúrgico do mundo, anunciou na quinta-feira um programa de desligamento voluntário em todas as suas unidades, com previsão de alcançar até 9 mil funcionários. No Brasil, a empresa já deu férias coletivas a 1.100 empregados. No ABC paulista, as montadoras também já apostam nas férias coletivas. O setor de construção civil é outro a exibir sinais de falta de fôlego. Representantes de movimentos sociais tiveram reunião com o presidente Lula em que cobraram justamente medidas para a manutenção de empregos. A reivindicação veio em carta subscrita por 60 entidades, incluindo a CUT e o MST. No documento, as entidades cobram até mesmo que o governo puna "duramente as empresas que estão demitindo".

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