PT gaúcho negocia afastamento de pivô da crise

O PT gaúcho está negociando internamente o afastamento voluntário do pivô da crise que envolve o nome do partido com o jogo do bicho, o economista Diógenes de Oliveira. A estratégia dos petistas, que instalaram neste sábado a comissão de ética para investigar o caso, é descarregar sobre os ombros do presidente do Clube de Seguros da Cidadania - entidade que captou recursos para a campanha petista de 1998 - qualquer responsabilidade pelas denúncias apuradas na CPI da Segurança Pública, evitando ao máximo as distensõs internas e os reflexos sobre o governo estadual."Se ele era íntimo do governador Olívio Dutra não faz diferença, porque às vezes somos traídos até pela mulher", disse o secretário da Justiça e Segurança, José Paulo Bisol, em seu depoimento aos parlamentares, na noite de sexta-feira. O pensamento expresso por Bisol sintetiza o que os líderes tem repetido nos últimos dias, ou seja, de que Olívio deve ser preservado do escândalo.O secretário, entretanto, chamado de "aprendiz de feiticeiro" por Diógenes na conversa gravada com o ex-chefe de Polícia Luiz Fernando Tubino, deixa transparecer um claro desconforto com as iniciativas do presidente do Clube da Cidadania. "Se eu conhecesse o Diógenes, eu dava uma porrada nele", afirmou na CPI.Embora compartilhada por muitos setores do governo, essa posição não é aceita por vários dirigentes do PT, a começar pelos da Articulação de Esquerda, corrente de Diógenes e do presidente do PT, Júlio Quadros. Mesmo considerando "falta grave" o fato de o petista ter pedido em nome do governador que a polícia não reprimisse o jogo do bicho, os líderes da Articulação tentam preservar a trajetória histórica de Diógenes, que atualmente está internado no setor psiquiátrico do Hospital de Clínicas, após receber alta do Instituto de Cardiologia.Até mesmo o prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, que faz parte da ala moderada, diz ser contrário ao "linchamento moral" do presidente do Clube da Cidadania e defende internamente uma "resolução acordada" para o caso. Teoricamente, Diógenes deveria ser expulso do partido porque é réu confesso, mas não está descartado seu afastamento voluntário.Para consumo externo, o PT busca resumir todo o episódio ao "carteiraço" de Diógenes no ex-chefe de Polícia. "Não há nenhuma ilegalidade nas doações recebidas pelo Clube da Cidadania", diz o presidente nacional do partido, José Dirceu, repetindo o discurso de outros líderes do partido. Ele admite, entretanto, que ainda falta explicações sobre a origem dos R$ 80 mil arrecadados pelo presidente da entidade para ajudar na compra da sede do partido.Internamente, entretanto, as relações com doadores e o futuro do clube dividem os petistas. Está provado que a entidade intermediou contribuições de várias associações empresariais e até empreiteiras que, pelas resoluções internas do partido, não poderiam ser recebidas pelo partido. Para resolver essa questão, o diretório estadual do PT deverá aprovar uma resolução de rompimento de relações com a entidade.Em seu depoimento à CPI, Bisol chegou a dizer que o dinheiro do bicho "está sujo de sangue" e "quem pega se suja e tem de responder por isso" - uma mensagem tanto para Diógenes quanto para os parlamentares de outros partidos que eventualmente tenham recebido doações de bicheiros. Os líderes do PT chegaram a denunciar o relator da comissão, Vieira da Cunha (PDT), por ter recebido uma doação de R$ 100 do delegado aposentado Nelson Soares de Oliveira, que já prestou auxílio advocatício a banqueiros do jogo do bicho.A última sessão de depoimentos da CPI, neste sábado, foi várias vezes interrompida por bate-bocas entre os deputados governistas e oposicionistas. O relator deverá apresentar suas conclusões na próxima quarta-feira para votação na comissão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.