Dida Sampaio|Estadão
Dida Sampaio|Estadão

PT fracassou na relação com partidos na Câmara

Descontente desde oprimeiro governo Lula, PMDB virou centro dainsatisfação, que foi capitalizada por Cunha

Adriano Ceolin, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2016 | 01h20

BRASÍLIA - Desde que chegou ao poder em 2003, o PT nunca conseguiu ter uma relação de confiança com os demais partidos no Congresso. Antes mesmo de Luiz Inácio Lula da Silva subir a rampa do Palácio do Planalto, a sigla deu início a uma série de desentendimentos, disputas e rivalidades que se avolumaram e desaguaram no processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Dono das maiores bancadas na Câmara e do Senado, o PMDB tornou-se o catalisador de conflitos que se espalharam entre os demais partidos da base aliada. As próprias características da sigla – dividida em alas que se movem a depender das conveniências – também contribuíram para esse processo. Ora, ele favoreceu o Planalto; ora, atendeu aos interesses pessoais dos congressistas.

A relação com o PMDB nasceu como um casamento desfeito no altar e que depois tentou ser retomado na marra. Grande parte da culpa é creditada a Lula. Após vencer José Serra (PSDB) na eleição de 2002, ele autorizou o então presidente do PT, José Dirceu, a negociar o ingresso no governo dos peemedebistas que haviam apoiado o tucano no pleito.

Em 20 de dezembro daquele ano, Dirceu e o presidente nacional do PMDB, Michel Temer, selaram um acordo para que a sigla ocupasse duas cadeiras na Esplanada dos Ministérios. Até os nomes do partido foram escolhidos: Eunício Oliveira (CE) e Hélio Costa (MG). Ficariam com Minas e Energia ou Integração Nacional.

Os dois dormiram ministros, mas acordaram sem cargo. Pressionado pelo PT durante a madrugada e com receio de nunca ter o apoio integral do PMDB, Lula mandou Dirceu desfazer a negociação. Foi um baque. De uma vez só, ele desautorizou seu futuro chefe da Casa Civil e envergonhou Temer perante seus correligionários.

Naquela oportunidade, o PMDB havia acabado de eleger uma bancada de 74 deputados. O apoio do partido permitiria a Lula ter uma coalizão mais estável na Câmara, onde o PT conquistara 91 cadeiras. Somados, petistas e peemedebistas formariam sozinhos uma base com 165 deputados, contra 156 da oposição, de PSDB mais PFL (atual DEM).

Lula, contudo, optou por uma estratégia arriscada. Resolveu abrir espaços no governo para a ala adversária a Temer, estimulando o enfraquecimento do seu grupo político. Sem o PMDB, o então presidente viu-se obrigado a ir atrás das siglas de porte médio – PL (atual PR), PP e PTB. A seu mando, Dirceu estimulou parlamentares eleitos pela oposição a ingressar nesses partidos. Dois anos depois, essas siglas estariam envolvidas no caso no mensalão.

Comandado por Valdemar Costa Neto, o PL se aliara a Lula antes para disputar a eleição, ao abrigar José Alencar no partido a fim de que ele fosse o candidato a vice-presidente. O PTB, de Roberto Jefferson, e o PP, de Pedro Corrêa, fecharam com Dirceu após a vitória de Lula. Com a revelação do esquema de pagamento de mesada a deputados, os quatro foram cassados.

Lula só se safou porque abriu feudos para o PMDB no governo em todos os escalões, em 2005. Um ano antes, o partido aderira ainda de forma tímida ao Planalto após o escândalo Waldomiro Diniz – funcionário da Casa Civil que fora flagrado recebendo propina do bicheiro Carlos Cachoeira. Sobretudo com a ajuda do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), Lula sobreviveu ao mensalão e conseguiu e se reeleger em 2006.

Dilma. Até então conhecida apenas como uma ex-militante do PDT com participação em governos no Rio Grande do Sul, Dilma Rousseff foi a maior beneficiária do veto de Lula ao PMDB em 2003. Ficou com a pasta de Minas e Energia, inicialmente reservada ao partido. Em 2005, com a demissão de Dirceu da Casa Civil, Dilma foi transferida para o lugar dele. Naquela oportunidade, ela já somava conflitos com o PMDB. O principal deles, contudo, aconteceu dois anos depois, com Lula já reeleito. Ela se posicionou contra uma indicação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para presidência de Furnas.

Inicialmente, Dilma foi derrotada. Lula cedeu a Cunha, que ameaçava relatar contra a prorrogação da CPMF em 2007. O projeto acabou rejeitado. O troco veio após Dilma assumir a Presidência, em janeiro de 2011. Na primeira semana de governo, ela mandou demitir o apadrinhado de Cunha em Furnas.

O deputado se consolidara como uma das principais lideranças peemedebistas na Câmara e virou o principal contraponto a ela no Parlamento. Elegeu-se presidente da Câmara com facilidade em fevereiro de 2015. Dez meses depois, logo após o PT apoiar um processo de perda de mandato contra ele, Cunha aceitou pedido de impeachment contra ela.

Casa parou ajuste fiscal

Reeleita com a defesa da expansão dos gastos públicos, a presidente Dilma Rousseff teve de enfrentar, antes da posse, o inverso do que pregara aos eleitores. Havia um rombo recorde nas contas públicas, e, para tentar fechá-las, nomeou um economista ortodoxo, Joaquim Levy, como ministro da Fazenda. Ele avisou que “o dinheiro acabou” e propôs cortes de despesas e aumentos de receitas. As medidas, porém, não foram votadas ou acabaram mudadas no Legislativo.

A proposição de reduzir desonerações de tributos para recuperar parte da receita perdida teve o impacto reduzido pela ação do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A ressurreição da CPMF nunca andou. No fim de 2015, Levy foi substituído por Nelson Barbosa.

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