PT e PSDB trocam de papel em prévias, dizem analistas

Na avaliação de analistas políticos, discurso petista de terminar com consultas internas representa mudança na postura histórica da sigla

Gustavo Uribe, da Agência Estado

28 de julho de 2011 | 12h38

O discurso de lideranças do PT contra a realização de consultas primárias para a disputa municipal de 2012 representa uma mudança na postura histórica da sigla, que se assemelha, pouco a pouco, a legendas como o PMDB e o DEM, cujas candidaturas costumam ser definidas pelas cúpulas partidárias. A avaliação é de analistas políticos consultados pela Agência Estado, que veem na mudança de atitude uma posição das lideranças petistas de tomar cada vez mais decisões por meio de acordos, sem ouvir as bases da legenda.

Se os petistas dão mostras de que irão evitar as prévias, os tucanos fazem o caminho inverso. As lideranças do PSDB têm defendido nos últimos tempos a consulta primária, pouco presente, segundo os analistas, na sua trajetória política. "O PSDB percebeu que estava se tornando um partido de muito cacique para pouco índio", explica o professor de Filosofia Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano.

A possibilidade de recorrer às prévias para a escolha do candidato tucano para a Prefeitura de São Paulo é discutida pelo comando municipal do PSDB, que prepara para os próximos meses um cronograma para a realização de uma eventual prévia. A proposta tem o aval do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que já disse ser favorável à iniciativa.

Na contramão do PSDB, o PT enfrenta atualmente um impasse em torno do debate sobre a realização de prévias para a Prefeitura de São Paulo. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, embora negue oficialmente, tem capitaneado nos bastidores um movimento contrário à consulta primária, encontrando resistência em algumas alas petistas.

''Federações oligárquicas''. "Na verdade, quando o PT se imaginava um partido socialista e democrático, ele primava por consultar as bases", destaca o professor Roberto Romano. O analista político explica, contudo, que a partir do momento em que o partido conquistou os governos estaduais e federal, iniciou um movimento de mudança, mimetizando aspectos de outras siglas, chamadas por ele de "federações oligárquicas". "É hoje natural que eles recusem as primárias e que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva julgue-se no direito de indicar quem vai ser candidato aqui, ali e acolá", afirma. "E se o PT continuar nessa marcha, pouco a pouco vai ter o destino de outros partidos, isso é, vai ter muito general para pouco exército."

O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda com a análise de que o discurso contra as prévias destoa da tradição histórica do PT. O analista político observa que, ao carregar essa bandeira, a legenda deixa para trás, cada vez mais, "a história de um partido diferente na cultura política brasileira". "É normal que os outros partidos não tenham a cultura de prévias, mas no PT não, isso está na sua própria origem", avalia.

"Eu acho que isso se deve, sobretudo, à profissionalização da militância do partido, onde de certa forma as lideranças querem tomar decisões com base em acordos", acrescenta. Ele avalia ainda que o esforço do ex-presidente em lançar candidatos de sua preferência, sem consultar as bases do partido, é um sinal de que a legenda talvez tenha se tornado menor do que as suas lideranças. "Hoje, parece que o Lula tem um partido e que, de certa forma, tudo se espelha naquilo que ele cria como referência de orientação."

O analista político Carlos Melo, do Insper - Instituto de Ensino e Pesquisa - observa que o discurso contrário à realização das prévias demonstra a tentativa das atuais lideranças da legenda de evitar a deflagração de um conflito por espaço dentro do PT, mantendo, assim, a sua atual influência sobre a sigla. "Há um conflito hoje no PT, de disputa de espaço no partido, que uma prévia tenderia a aguçar ainda mais", explica. "A postura das lideranças é de tentar conter essa tensão, evitando que ela estoure", emenda.

Melo observa ainda que interessa ao ex-presidente, hoje a maior liderança da sigla, administrar esse conflito, mantendo a capacidade de fazer valer o seu prestígio. "É uma maneira de manter a sua influência sobre o partido, por meio da autoridade de que atualmente dispõe", explica.

PSDB. A avaliação do professor Roberto Romano é de que, ao pregar caminho oposto ao dos petistas, pela realização da consulta primária, os tucanos tenham como foco uma maior coesão no interior da sigla, buscando, assim, uma solução para a crise que enfrenta o partido desde o início do ano, com a sucessiva perda de quadros. "Como eles estão encontrando problemas internos, isso talvez seja uma fórmula interessante que permita uma reestruturação estratégica da sigla", observa o analista político. Ele lembra que, diferente do PT, o PSDB não tem a tradição de consultar as suas bases para a escolha de candidatos. "Eles perceberam que estavam no rumo errado e estão tentando corrigir isso agora."

O cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira não crê muito na possibilidade de o PSDB realizar uma consulta primária para a Prefeitura de São Paulo, mas considera que, por meio das prévias, os tucanos possam buscar um meio de superar a desarmonia interna. "A tradição clássica do PSDB é de tomar decisões de cúpula", lembra. "Se o modelo anterior, de certa forma, gerou crise e não está dando certo, são tentados novos caminhos."

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