PT e governo já ''precificaram'' mensalão, diz cientista político

Cientista político Cláudio Couto comenta o que está em jogo no encontro petista.

BBC Brasil, BBC

01 Setembro 2007 | 07h10

Os maiores custos do mensalão já foram "precificados" pelo PT e pelo governo, apesar de a crise ter voltado à tona nesta semana com a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de aceitar as acusações contra petistas implicados no esquema, segundo o cientista político Cláudio Couto, da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo."Os estragos que tinham que ser feitos já foram feitos. Daqui para frente, os estragos são mais para as suas lideranças do que para o partido propriamente dito", disse Couto, em entrevista sobre o 3º Congresso do PT, que começou nesta sexta-feira, em São Paulo.A expectativa do partido é de que 3 mil pessoas participem do Congresso, incluindo 931 delegados de todo o país, que deverão votar 75 resoluções propostas sobre três temas: "O Brasil que queremos", "Socialismo petista" e "Concepção e funcionamento do PT".Embora não estejam na pauta oficial, a reorganização de forças dentro do PT e a idéia de uma candidatura própria em oposição à de um candidato da base aliada, que vem ganhando força no governo, deverão influenciar as discussões petistas.Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Cláudio Couto à BBC Brasil: Este congresso normalmente seria um momento de o partido definir estratégias, sobretudo para resolver questões internas. Tem mais a importância de o partido reafirmar certas posições para si mesmo do que propriamente passar uma mensagem para a sociedade. O PT de 1991 era um partido de oposição no plano nacional, diria quase que de oposição nata, já que nasceu fazendo oposição e se desenvolveu na oposição. Hoje em dia, o PT é um partido de governo nacional e daí certas posições ideológicas que o congresso toma não têm muita relevância para o partido, na medida em que aquilo que define a forma real pela qual ele age na política brasileira é a direção que o presidente resolve dar ao seu governo. É isso que dá a cara externa do partido. A vida interna do partido foi ofuscada pela relevância externa que o partido adquiriu. Creio que para deixar a poeira baixar, afinal de contas o partido passou talvez pela maior crise da sua história. Mas é bom lembrar que o partido passou por eleições internas, não é que não tenha se discutido. Agora, se além de tudo tivesse chamado um congresso para levar o partido ao divã, talvez tivesse saído esfacelado. Aguardar a poeira baixar foi uma posição correta, do ponto de vista estratégico. Não acho que o partido tenha mudado muito, talvez sequer o jogo de lideranças. Nas eleições, o candidato que defendeu uma refundação do PT, Tarso Genro, foi escanteado, dado que não aceitava figuras ligadas ao José Dirceu, que ainda era uma figura muito forte na época. É a mesma coalizão dominante que continua, ainda que enfraquecida, e com o ofuscamento do seu principal líder, José Dirceu. Há uma pequena mudança aí, que deixou esse setor na defensiva, com um perfil mais baixo do que tinha anteriormente. Boa parte do custo desse processo já foi consumado, ou ''precificado'', como se diz no mercado financeiro. A mesma coisa vale para o PT e para o governo. Os estragos que tinham que ser feitos já foram feitos. Daqui para frente, os estragos são mais para as suas lideranças do que para o partido propriamente dito. Inclusive porque o julgamento demora ainda para terminar. Não creio que o partido tenha a capacidade de discutir nomes. O partido foi decapitado. Quem sobrou que é eleitoralmente viável? Há alguns anos, José Dirceu era um possível candidato, (Antonio) Palocci despontava como uma liderança nacional, José Genoino era uma importante liderança em São Paulo. Mas todos caíram em desgraça. Hoje talvez uma liderança nacional seria o Tarso Genro, mas ele ainda é mais importante no Rio Grande do Sul do que no plano nacional. Teria que fazer uma gestão incrível à frente do Ministério da Justiça para se viabilizar como candidato e, além disso, não é bem visto pelo Campo Majoritário do PT. Poderia até discutir a tese de uma candidatura própria, mas jamais teria condições de definir qualquer coisa mais concreta. O Campo Majoritário era um amontoado de grupos mais ou menos próximos em torno do centro do partido, mas havia um grupo dominante que era liderado pelo José Dirceu. Com a crise, justamente o setor hegemônico do Campo Majoritário saiu chamuscado, perdeu respeitabilidade, perdeu capacidade de influenciar os demais setores do partido, teve sua liderança questionada. Hoje, o setor predominante é obrigado a ceder espaço para os demais, negociar mais. Então, hoje, o Campo Majoritário é mais homogêneo. Não, serviu para dividir, mas gerar um maior equilíbrio de poder entre elas. Essa foi a conseqüência líquida da crise. Tarso Genro lidera uma corrente de oposição moderada (Movimento PT). Alas mais moderadas à direita, do ponto de vista do PT, foram incorporadas pelo Campo Majoritário e em parte pelo próprio Movimento PT. Grupos mais à esquerda seguem como grupos estridentes, sem grande importância do ponto de vista organizacional. A Articulação de Esquerda é um pouco maior, mas não a ponto de se tornar uma alternativa real de poder dentro do partido, mesmo que se junte com os grupos trotskistas. Acho que o lulismo é mais forte do que o petismo na sociedade e no governo, mas não é mais forte do que o petismo dentro do próprio PT. O PT é uma organização muito forte, ainda que com posições ideológicas distintas, tem uma identidade partidária muito clara. Tem uma vida organizacional interna muito dinâmica. Tudo isso dificulta que uma liderança como a do Lula se sobreponha ao partido. O que o PT perde com o Lula é o seu nome nacional, o nome que viabiliza para o partido uma candidatura no plano nacional, o que vai aparecer de forma clara nas próximas eleições presidenciais. A considerar o que acontece hoje, o PT chega a essas eleições sem um nome nacional, que teria que construir até lá. No primeiro mandato, até tentou com Palocci. Acho que o partido pode adotar três posições: um, defender posições simbólicas que, do ponto de vista prático, não têm importância e que serão ignoradas pelo governo; dois, exigir que o governo faça o contrário de tudo que está fazendo, o que também seria ignorado; e três, tomar posições mais próximas do governo e criar condições para um diálogo mais construtivo com o governo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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