PT deve crescer no interior para avançar rumo a 2014 em SP, dizem especialistas

Especialistas indicam que o eleitorado paulista tem mostrado uma evolução diferente do resto do País; para eles, ganhar espaço fora dos grandes centros urbanos no Estado pode ser determinante

Bruno Siffredi, do estadão.com.br

25 de janeiro de 2012 | 21h59

A conquista de novas prefeituras e o avanço fora da região metropolitana de São Paulo pode ser determinante para o PT voltar a crescer no Estado e acabar com a hegemonia tucana nas eleições estaduais de 2014, indicam cientistas políticos ouvidos pelo estadão.com.br. Após apresentar um bom crescimento em SP nas eleições de 2004 (durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva), o PT não conseguiu avançar na eleição seguinte, em 2008. A estagnação aconteceu no mesmo momento em que a boa popularidade do ex-presidente ajudou o partido a ganhar espaço em outros Estados. Especialistas apontam as características do eleitorado paulista e do cenário político no Estado como principais razões para a mudança.

 

Para o professor da FGV, Fernando Abrucio, a influência dos governadores nas eleições municipais é um fator importante. "PMDB e PSDB possuem mais prefeituras que o PT em SP. O motivo é a força que os governadores têm nas cidades pequenas." Abrucio aponta que, em um período de 10 anos, o PT praticamente dobrou o número de prefeituras fora da Grande São Paulo. "Não é pouco, mas é um crescimento menor do que o PT apresentou no resto do País", explica.

 

Em 2004, o partido elegeu 51 prefeitos e 443 vereadores fora da Grande São Paulo, marcando um grande avanço em relação à eleição de 2000, quando 28 prefeitos e 336 vereadores foram eleitos. Na última eleição municipal, em 2008, o PT manteve praticamente o mesmo patamar, conquistando 53 prefeituras e elegendo 442 vereadores.

 

A imagem da presidente Dilma Rousseff, após um primeiro ano de governo marcado pela 'faxina' nos ministérios e por uma mudança de postura em relação a aliados e adversários políticos, pode ser decisiva para a conquista de um eleitorado mais conservador, aponta o professor do Insper Carlos Melo. Para ele, Dilma apresentou um estilo conservador, moralista e menos controverso que o Lula, mas que atende ao gosto do eleitorado paulista.

 

Melo destaca ainda a aproximação da petista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre muito criticado por Lula nos discursos, e com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. "Ela faz uma parceria com o Alckmin que o Lula não teve de 2002 a 2006 e não teve com o Serra de 2006 a 2010. Em momento nenhum nos vimos isso antes", observou.

 

Abrucio discorda da tese e afirma que Lula ainda deve ter um papel predominante nas eleições deste ano. "Como ela [Dilma] está com uma boa popularidade, isso ajuda os candidatos do PT. Porém, a ajuda maior vai depender muito dos contextos regionais. No Estado de São Paulo, é provável que o Lula tenha mais impacto", indicou. Para ele, a grande novidade da eleição deste ano em São Paulo é que "pela primeira vez o Lula tem mais impacto do que qualquer cacique tucano. Acho que isso é que está gerando todo esse bafafá no PSD e no PSDB."

 

A menor dependência de São Paulo no uso de recursos federais é um dos motivos que levam o partido a crescer menos em São Paulo do que no resto do País, destaca Abrucio. "O PT cresce mais em prefeituras e em lugares que dependem mais do governo federal, como Nordeste e Norte. No Sul, o PT teve um espaço maior para crescer porque as hegemonias nos três Estados do Sul não são tão claras como a hegemonia do PSDB em São Paulo."

 

Já Melo destaca a resistência ao PT por parte do eleitorado paulista. "Mesmo antes de o Lula ter sido presidente da República, existia uma resistência nos pequenos e médios municípios em relação ao PT. Nas cidades de base industrial e urbana menores sempre houve uma resistência grande", afirmou.

 

Para ele, as últimas eleições revelaram um eleitorado cada vez mais dividido por faixas de renda. Ele aponta que, nas últimas eleições presidenciais, a disputa no segundo turno com ex-governadores do Estado (Geraldo Alckmin em 2006 e José Serra em 2010) contribuiu para afastar os eleitores paulistas do PT. "O eleitorado do Brasil se dividiu. Você vê que o PT teve uma enorme penetração no Nordeste e Norte e nas regiões mais pobres do Sudeste e do Sul, mas em municípios mais ricos houve uma opção pelo PSDB nestas duas eleições", observou.

 

"O Estado de São Paulo, de forma geral, tem municípios relativamente ricos, relativamente desenvolvidos. Eles podem ter bolsões de pobreza, mas fora região metropolitana apresentam uma situação estável do ponto de vista de renda e social. Composição social que passa a ser contraditada com o eleitor típico do PT, que acaba sendo de alguma forma favorecido pelas políticas públicas do governo."

 

Melo aponta o desgaste sofrido pelo PT durante o escândalo do mensalão como principal dificuldade do partido para aumentar a penetração no Estado de São Paulo. De acordo com ele, o episódio "teve um efeito diferente do resto do Brasil" e marcou a imagem do ex-presidente Lula. A partir daí, explica Melo, começa a haver uma divisão regional e de classe social do eleitorado, que rejeita o Lula e o PT e define seus votos em 2006 e 2010 norteados por essa rejeição.

 

O desempenho eleitoral do ex-presidente fora da Grande São Paulo mostra em números o desgaste apontado pelo cientista político. No primeiro turno de 2002, Lula obteve um total de 4.704.213 votos nesses municípios, conquistando 46,7% do eleitorado fora da região metropolitana. No segundo turno, avançou ainda mais e obteve 5.825.490 votos, 55,82% do total. Quando disputou a reeleição, em 2006, seus resultados pioraram. No primeiro turno, conseguiu 3.857.504 votos fora da Grande São Paulo, o que significou 34,06%. Já no segundo turno, foram 5.236.439, 45,51% do total.

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