PT de Minas realiza prévias em busca de unidade

Mais do que um pré-candidato ao governo do Estado, partido vai às urnas para decidir quem conduzirá política de alianças

André Mascarenhas, do estadao.com.br

30 de abril de 2010 | 18h19

O diretório estadual do PT de Minas Gerais começa a encaminhar neste domingo, 2, uma disputa que tem causado nervosismo e falta de entendimento entre setores do próprio partido. Mais do que decidir seu pré-candidato ao governo, estará em jogo quem conduzirá o partido no processo de negociação de uma aliança com o PMDB para a disputa no Estado.

 

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Acompanhe entrevista de Patrus Ananias, ex-ministro de Desenvolvimento Social e Combate à Fome e possível pré-candidato ao governo de MG pelo PT

 

Os dois postulantes têm uma larga história no PT mineiro. O ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome Patrus Ananias contará com o apelo de ser o principal coordenador das bem-sucedidas políticas de combate à fome do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Do outro lado do ringue, o também ex-prefeito de BH Fernando Pimentel é amigo próximo de Dilma, e participa ativamente de sua campanha, como coordenador.

 

Mas é o pré-candidato do PMDB, o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa, quem tem, neste momento, o maior apoio do eleitor. Na última pesquisa Datafolha, de dezembro de 2009, Costa aparece na frente em todos os cenários.

 

O vencedor da prévia deste domingo terá a missão de unir o PT mineiro para a delicada discussão sobre a política de alianças do partido, que será decidida em reunião do diretório estadual nos dias 21, 22 e 23 de maio.

 

Ambos postulantes defendem, publicamente, que o PT encabece uma chapa unificada com o PMDB. A dificuldade será, entretanto, convencer os aliados nacionais a retirar o nome de Costa. O escolhido (ou os escolhidos, no caso de não haver aliança no primeiro turno) enfrentará o governador Antônio Anastasia, do PSDB. O tucano substitui Aécio Neves, que se desincompatibilizou do cargo de governador para disputar o Senado.

 

Os dois postulantes falaram com o estadão.com.br na última quarta-feira, 27. Leia a seguir os principais trechos das entrevistas, com as respostas divididas por assuntos, ou ouça a íntegra da entrevista de Pimentel aqui (link áudio) e a de Patrus aqui (link áudio):

 

Vitória de Dilma em Minas combinada com uma derrota do candidato governista ao governo do Estado

 

Pimentel: "A gente aceita o que sair das urnas. O resultado das urnas é o resultado da vontade popular. Eu vou trabalhar, e nós todos do PT vamos trabalhar, para que o resultado seja uma vitória de alto a baixo da nossa chapa, da nossa proposta, do nosso projeto. Eu acredito que é muito mais viável imaginar que o voto o Minas Gerais caminha na mesma direção, ou seja, na direção de referendar o projeto do presidente Lula, que agora vai ser liderado pela ministra Dilma, e votar também nos seus representantes, nos integrantes desse projeto no campo estadual (...). Vamos trabalhar para que seja um resultado homogêneo, com a ministra Dilma para a Presidência da República e a nossa chapa estadual também vitoriosa."

 

Insistência nas prévias

 

Pimentel: "Não há insistência do PT, há uma insistência de uma parte do PT, que hoje é minoritária, porque perdeu a eleição interna. Eu to falando por mim e pelo grupo que eu represento, que tem maioria no diretório, maioria na executiva, maioria dos delegados no Congresso Nacional. Nós tentamos um acordo com o grupamento do ex-ministro Patrus. Desde outubro tentamos esse acordo interno para que não houvesse prévia, todavia não foi possível um acordo e um acordo só é possível quando os dois lados querem. Como só meu lado queria, o do ministro Patrus não quis, não foi possível ter um acordo."

 

Patrus: "Nós estamos realizando as prévias, que é um processo legítimo e democrático. O estatuto do PT, que é o nosso documento jurídico maior, consagra as prévias e faz parte também da tradição democrática do partido.(...) Já vivemos várias situações de prévia. Inclusive eu, quando fui candidato a prefeito vitorioso em Belo Horizonte, enfrentei prévias no partido, e isso reforçou a unidade. Porque a base partidária, os nosso filiados, constituem a grande força da unidade do nosso partido (...). É conhecido o empenho dos militantes petistas nas campanhas. E fazem campanha não por dinheiro, mas com motivação, com compromisso, com valores éticos, sociais. Então eu penso que a prévia em si é uma coisa boa. Nós estamos reafirmando a nossa opção democrática, ouvindo as bases e dando um exemplo claro de compromisso com a democracia participativa."

 

Estratégia de campanha

 

Patrus: "É claro que vamos discutir conteúdos. Nós vamos discutir a situação efetiva de Minas. Nós reconhecemos que o Estado teve alguns avanços, uma maior racionalidade administrativa, algumas intervenções interessantes, como por exemplo no setor viário (...). Mas hoje os professores de Minas estão em greve. Eles estão reivindicando o piso salarial. Eu tenho visto contracheques onde a base do salário, sem as gratificações, é de pouco mais de R$ 300. (...) É fundamental que nós tenhamos uma política para os servidores públicos. Que eles sejam respeitados, que suas identidades sejam respeitadas, que haja uma mesa de negociação permanente, que eles sejam valorizados, que haja uma política de capacitação e, nas possibilidades do Estado, dignamente remunerados (...)"

 

Pimentel: "Não há favoritismo. O que há, sim, é uma simpatia muito grande pelo governador Aécio Neves. Agora, favoritismo não há, porque se houvesse ela estaria estampada nas pesquisas. Se você analisa as pesquisas, o governador Anastasia, que é o candidato do PSDB, está em último lugar em todas elas. O que há é um cenário em que nós vamos ter que trabalhar, nós que somos forças de oposição ao governo Aécio Neves, com sabedoria. Nós temos que reconhecer que nós vamos enfrentar o candidato de um governo que tem uma aprovação muito alta. Nós temos que reconhecer isso. Trabalhar com a ideia de que aceitar a aprovação popular que tem o governador Aécio Neves significa fazer uma campanha respeitosa, destacando aquilo que deu certo, mas mostrando também aonde pode avançar mais, aonde houve algum desvio, algum erro, alguma coisa que possa ser corrigida, e mostrar nosso projeto. Minas pode avançar mais se acoplar mais o seu projeto de governo ao grande processo de transformação nacional, hoje liderado pelo presidente Lula, e amanhã, se Deus quiser, liderado pela ministra Dilma Rousseff."

 

Palanque Único

 

Pimentel: "Não há porque ter nervosismo da base aliada. O PT neste momento está escolhendo o nome do partido que vai, soberanamente, depois ser apresentado aos demais partidos aliados, para compor a chapa majoritária. Claro que nós vamos querer que esse nome seja o candidato a governador. Mas nós vamos negociar. Nós estamos abertos a uma reflexão política com o PMDB, com o PR, com o PDT, com o PCdoB, com todos os partidos da base aliada para construirmos a melhor uma chapa unificada para ganhar a eleição em Minas Gerais (...). A melhor chapa seria com um nome do PT na cabeça de chapa e um nome do PMDB compondo a chapa, talvez como senador, como vice, como for. O PMDB entende de outro jeito, e é natural e legítimo que entenda assim. Terminada a prévia, nós vamos ter que fazer esse processo de negociação de reflexão, e achar a melhor composição. Aí eu volto a insistir: teria sido mais fácil se tivéssemos feito um acordo interno lá no ano passado em outubro, porque toda essa reflexão e essa negociação já teriam sido feitas, e nós estaríamos com a chapa montada já em processo de pré-campanha. Como isso não aconteceu por intransigência do outro lado, nós agora vamos às prévias, já com um certo atraso na definição, mas nada também que impeça que a gente mais adiante esteja inteiramente unidos num grande palanque para assegurar a vitória do nosso projeto em Minas e da ministra Dilma nacionalmente."

 

Patrus: "Estamos empenhados em construir em Minas uma aliança programática, uma aliança com nossos parceiros e interlocutores históricos, forças políticas e sociais que sempre estiveram conosco, desde que nós conquistamos a prefeitura de Belo Horizonte. Vamos intensificar as negociações com os partidos da base de sustentação do presidente Lula. Nesse contexto, o PMDB é um interlocutor importante por sua presença e sua capilaridade no Estado (...). Eu sempre defendi que nós busquemos um palanque único, dentro de uma linha, inclusive, de maior respeito aos eleitores (...). As alianças devem ser feitas dentro de diretrizes éticas, programáticas, o que nós vamos propor para Minas Gerais. Qual é o nosso projeto para bem governar o Estado nesses temas fundamentais que eu mencionei. E tantos outros mais. Nesse sentido, eu penso que o palanque único possibilita uma aliança programática. Nós podemos começar a discutir os nossos compromissos estratégicos com o povo de Minas. Mas se não for possível, também o palanque duplo faz parte do processo democrático brasileiro, está previsto na legislação brasileira e nós podemos fazer dois palanques com o compromisso de uma aliança no segundo turno."

 

Vaga ao Senado

 

Pimentel: "A categoria com que se trabalha (na política) é a necessidade. O que é necessário pro seu campo ter uma vitória, o que é necessário para ganhar a eleição estadual, o que é necessário para dar a mais forte campanha possível em Minas Gerais para a nossa chapa nacional liderada pela ministra Dilma Rousseff. Essa é a discussão."

 

Hélio Costa melhor posicionado nas pesquisas

 

Pimentel: Nossa discussão não é o desenho da chapa. A nossa discussão é qual dos dois nomes do PT tem as melhores condições de ser apresentado na mesa de negociação. Se é o segundo colocado nas pesquisas que sou eu, ou se é o terceiro colocado nas pesquisas, que é o ex-ministro Patrus (...). Depois dessa decisão é que nós vamos sentar com o PMDB e começar a negociação, a argumentação, ver, de fato, quem está melhor nas pesquisas. Porque não basta só o resultado da pesquisa estimulada. Nós temos que ver a rejeição, temos que ver a pesquisa espontânea, o voto sólido, a transferência de votos. Como ela se dá em Minas, pra quem o presidente Lula transfere mais votos, se é um candidato do PT ou um candidato de fora do PT."

 

Patrus: "Nós temos até julho para construirmos essa unidade. Eu tenho grande apreço pelo ministro Hélio Costa, fomos colegas de governo, já nos conhecíamos antes, sempre tivemos uma relação de respeito, e no governo tivemos uma relação de cooperação. Ele é de fato uma grande liderança política em Minas Gerais. Mas as pesquisas tem a função de refletir o momento. Nesse momento as pessoas que estão ligadas nesse processo são poucas (...). Eu entendo que é o momento de nós irmos sentido também o sentimento dessas lideranças, dos militantes, dessas pessoas que efetivamente tem um papel multiplicador no processo eleitoral."

 

Críticas à coordenação da campanha de Dilma

 

Pimentel: "Eu não vi nenhuma crítica nesse sentido. Eu to participando das prévias por uma imposição regimental. Se eu vier a ser candidato a governador - não pré-candidato, candidato efetivamente, o que nós vamos saber em julho - evidentemente eu não posso ficar na coordenação. É incompatível com o trabalho de coordenação."

 

Porque Minas é tão importante

 

Patrus: "(...) Minas é seguramente um estado fundamental do País também do ponto de vista geográfico, geopolítico, histórico, cultural, do ponto de vista da formação da nacionalidade brasileira. Alguém já escreveu muito bem que Minas armou o laço e amarrou as pontas do Brasil (...). O projeto nacional passa por Minas Gerais. As grandes conquistas do nosso País só se confirmam efetivamente, historicamente, quando enraizadas também em Minas. Por isso é importante nós termos em Minas uma candidatura sintonizada com este novo momento que nós estamos vivendo. Uma candidatura comprometida também com as mudanças sociais, com o desenvolvimento econômico, mas um desenvolvimento com justiça e inclusão social, como estamos fazendo no Brasil no nosso governo do Presidente Lula."

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