PT de Marília cobra R$ 20 mil de Vaccarezza

Candidato a deputado estadual que fez dobradinha com petista diz ter ficado com R$ 270 mil de prejuízo

Jair Stangler, do estadão.com.br,

11 de abril de 2011 | 19h00

SÃO PAULO - Em Marília, há duas denúncias de calote do deputado federal Candido Vaccarezza (PT). Segundo o diretório do PT da cidade, o deputado deve R$ 20 mil para pagamento de cabos eleitorais. Já o engenheiro José Menezes (PSL), que foi candidato a deputado estadual em dobradinha com o petista, diz ter ficado com prejuízo de R$ 270 mil.

 

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Tanto o PT local quanto o engenheiro Zé Menezes admitem que, assim como ocorre em Tupã e em outras cidades, a escassez de documentos dificulta as coisas na hora de provar a dívida. Ambos usaram o mesmo argumento para justificar o acordo feito com Bonaldo e Vaccarezza. Tratava-se de um acordo com o líder do governo na Câmara. Era confiável.

 

"Chega na cidade o Walter Bonaldo, que é assessor do líder do governo. O Alonso (presidente em exercício do PT do município) é militante do PT há 30 anos. É amigo do Mercadante, do João Paulo Cunha, de todo mundo, você está entendendo? Agora, chega o líder do governo e te faz uma proposta, vem e pede pra trabalhar, como outros também vem, o João Paulo Cunha, o José Mentor. Veio e fez a proposta. Chega época de eleição o pessoal que quer ganhar a eleição procura o pessoal do interior para trabalhar. Para mim, tudo certo", afirma João Ribeiro, da executiva do PT na cidade.

 

João Ribeiro diz que o PT de Marília enviou ao diretório nacional e estadual do partido a notificação abaixo sobre a dívida de Vaccarezza com o diretório municipal. Edinho Silva, presidente estadual do PT, negou que tenha recebido a notificação. Rui Falcão, presidente em exercício do PT nacional, não respondeu a pedido de entrevista que a reportagem do Estadão.com.br deixou registrado em seu celular.

 

 

Segundo ele, os valores são um pouco diferentes porque Walter Bonaldo (PMDB), apontado por Ribeiro como coordenador da campanha de Vaccarezza na região de Alta Paulista, pagou o gasto do diretório municipal com combustíveis (rubrica POSTO XV da planilha). Segundo o próprio Bonaldo, não se trata de uma admissão de dívida, mas de uma ajuda que prestou a um amigo. De acordo com Ribeiro, ele havia pago o combustível de seu próprio bolso.

 

Abaixo, a cópia dos dois chegues usados para pagar o posto:

 

 

"O cara abasteceu não é porque conhece o Vaccarezza. Ele foi lá abastecer porque conhece eu e o Alonso. As pessoas vem trabalhar porque já trabalharam com a gente na eleição de 2000, 2004, pra prefeito, entendeu?", acrescenta Ribeiro.

 

Ribeiro diz que o dinheiro que seria devido pelo deputado não é dinheiro deles. É dinheiro das pessoas contratadas - os nomes que estão na planilha. "Nosso papel é o de intermediar. As pessoas nos procuram para trabalhar. Ele não deve para mim. Deve para essas pessoas", explica.

 

Já o porfessor Alonso Bezerra de Carvalho, presidente em exercício do diretório municipal do PT, conta que nunca houve problema com as campanhas na cidade. Diz que após ter sido procurado por Bonaldo, começaram a definir a estratégia de campanha. "Começamos a fazer campanha, preparar material, cartaz, faixa, equipe trabalhando na rua, na casa das pessoas, levando materiais. foi combinado alguma coisa de colaboração, para que as pessoas pudessem trabalhar. E em determinado momento nós não recebemos os valores. aquilo que estava combinado no começo da campanha, que foi em julho, inclusive eu alertei a outros assessores do deputado que a gente estava visualizando que as coisas não seriam cumpridas" - de fato, ainda em agosto, ele enviou um e-mail a Tião, assessor de Vaccareza, sem no entanto obter resposta. "Mas fizemos a campanha até o fim, até o último dia", completa.

 

O deputado federal Candido Vaccarezza posa para foto ao lado de Alonso. Foto: Reprodução

 

"Foi na confiança, porque somos do mesmo partido, do mesmo projeto, era a eleição da dilma, era a reeleição do deputado. O deputado não tinha um trabalho aqui na região, sobretudo na cidade de Marília, nós fizemos o possível para que esse espaço fosse aberto", acrescenta. O petista lamenta a falta de documentos para comprovar a dívida, mas ressalva: "é impossível que tenha surgido uma avalanche de mentirosos aqui na região, né?"

 

O professor relata ainda que o assessor de Vaccarezza falou que foi "pouco voto" e que o que ele pagou "tá bom". Em 2006, em Marília, Vaccarezza recebeu 18 votos, ante 606 em 2010.

 

Ainda em Marília, o engenheiro José Menezes conta que Vaccarezza ficou devendo para ele R$ 270 mil. Menezes diz que foi procurado por assessores do deputado para tratar de uma dobradinha e que depois acertou diretamente com Vaccarezza: cada um pagaria R$ 300 mil para fazer a campanha. "Fugi de outras pessoas em quem não confiava. Mas quando veio o Vaccarezza pensei: 'bem, é o líder do governo'".

 

"Marcamos a conversa com o Vaccarezza, ele veio aqui, era um domingo, a gente se reuniu e a gente fechou um acordo, que a gente faria o material todo junto, eu fiz o material só com ele, e ele entrava com uma participação financeira de 300 mil, em 3 parcelas de 100, e deu as datas - era 20 de julho, 20 de agosto e 20 de setembro. Resumindo era 3 de 100 e ele mandou 3 de 10. E era sempre um papo assim - não, mês que vem entra, porque a Dilma tá recebendo uma doação, contrata gente aí. No final eu fiquei num perrengue aqui, tive maior dificuldade pra honrar compromisso que a gente tinha contratado, perdemos voto por causa disso, ficou gente pra acertar depois da eleição, aí a pessoa já trabalha contra, foi uma dificuldade muito grande. Aí passou a eleição e ele "devo não nego, vou te pagar". Essa conversa toda já era do Walter, né?", relata. Walter, dessa vez, entrou depois na história. Mas ainda assim, tornou-se um interlocutor, segundo Menezes. "A maioria da conversa foi com o Walter, mas eu falei com o Vaccarezza várias vezes...", afirma.

 

"Eu tô na política há 20 anos. Já fui vereador duas vezes, já fui candidato a vice-prefeito. Eu nunca lidei com gente tão ruim igual esse povo aí. Já lidei com gente ruim, mas igual isso aí eu nunca mexi", diz Menezes.

 

Menezes, que não conseguiu se eleger, afirma que fez mais 2.200 votos casados com Vaccarezza nas 54 cidades em que trabalhou a dobradinha. Diz também que pagou tudo e não deixou dívidas. "Não tem uma pessoa que venha bater na minha porta (pra cobrar dívida)", declara. Menezes descarta entrar com ação. "Eu pensei assim: eu vou entrar com advogado contra esse cara? Eu não tenho contrato assinado, tenho prova verbal, material que a gente confeccionou junto. Eu vou entrar contra ele e ele vai ser defendido pelo escritório do ministro (José Dias) Tofolli (do STF) e eu vou ser defendido por um recém-formado. Aí quem vai ganhar?", questiona.

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