PT chega a Congresso dependente de Lula, diz cientista político

Para Fernando Abrucio, tempo é melhor remédio na política e ir contra governo seria insano.

Carolina Glycerio, BBC

31 de agosto de 2007 | 13h00

O PT chega ao seu 3º Congresso, que começa nesta sexta-feira, em São Paulo, cada vez mais dependente dos êxitos do governo Lula, avalia o cientista político Fernando Abrucio, professor da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) e da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo."Em boa medida, a sobrevivência do PT vai depender cada vez mais dos resultados do governo Lula", afirmou Abrucio, em entrevista à BBC Brasil."A grande bandeira que eles podem ter para fortalecimento político é o governo. É a única coisa que sobra para o PT. Jogar contra isso é uma insanidade política."Primeiro congresso do partido desde a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o encontro ocorre na semana em que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu acolher as acusações contra 40 supostos envolvidos no esquema do Mensalão, incluindo grandes nomes do PT, como o ex-ministro José Dirceu e o ex-presidente do partido e deputado federal José Genoino.O cientista político diz não acreditar que nas atuais circunstâncias o partido vá discutir a possibilidade de lançar uma candidatura própria às eleições presidenciais de 2010, já que isso se chocaria com a idéia supostamente cada vez mais corrente no governo de, na falta de um quadro petista forte, concorrer com um candidato da base aliada.Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Fernando Abrucio à BBC Brasil: Pode influenciar um pouco se o Congresso do PT se decidir por uma candidatura própria, o que eu não acredito que ocorra porque isso criaria uma grande tensão na coalizão governista. A tendência é que eles sinalizem que gostariam de ter, mas sem fechar as portas. Quanto ao resto, em termos de políticas públicas, não me parece que o Congresso do PT seja o maior instrumento de pressão. Na verdade, são grupos do PT que são fortes dentro do governo e podem pressionar por políticas públicas. Mas não há uma equivalência entre as forças no Congresso do PT e as forças do PT no governo. Há diferenças: por exemplo, o ministro Tarso Genro é forte dentro do PT, mas o grupo dele dentro do PT não é forte. A ministra Dilma (Rouseff, da Casa Civil), o ministro Luiz Dulci são fortes. Também não são pessoas fortes dentro do PT. Do ponto de vista das políticas públicas, é muito difícil que o Congresso produza pressões contra o governo e modifique as políticas. O governo hoje, em termos de ministros petistas, é majoritariamente formado por ministros independentes do PT: a ministra Marina (Silva, Meio Ambiente), o ministro Fernando Haddad (Educação), Tarso Genro (Justiça), Dilma, Desenvolvimento e Reforma Agrária (Guilherme Cassel), Paulo Bernardo (Planajemanto), (Guido) Mantega (Fazenda). São todos petistas. É normal que quando um partido ganha uma eleição não se confunda com o governo. Mas, no caso do governo Lula, acho que essa autonomia é crescente. Por três razões: primeiro, porque o lulismo é maior do que o PT, a segunda razão é que aquilo que o PT propunha como políticas públicas foi avaliada como inexeqüível por Lula e pelos ministros; e, por fim, por conta das crises mais recentes do PT, particularmente desde a saída do ex-ministro José Dirceu. Do ponto de vista do partido, a forma como ele participa mais do governo é através da distribuição de cargos, cada vez mais do primeiro escalão para baixo. Tem uma importância grande por causa do que aconteceu nesta semana, pode ser que eles finjam que não aconteceu nada, mas acho que algumas tendências do PT não vão deixar que isso ocorra, vão lembrar que houve todo esse processo do STF, abrindo um processo contra importantes membros do Campo Majoritário. Acho que isso vai levar muita gente a se distanciar do Campo Majoritário, que é o começo do fim do Campo Majoritário. Em boa medida, a sobrevivência do PT vai depender cada vez mais dos resultados do governo Lula. O que vai acontecer é que petistas que estiverem bem com Lula vão ter um poder muito grande no destino do PT nos próximos dois, três anos. Acho que a melhor chance deles agora é aparecer menos porque a variável principal de política é o tempo. Se eles desaparecerem por um tempo, vão evitar que o custo dessas decisões seja maior do que já é.Reprisar esse tema não me parece que traga muita coisa. A grande bandeira que eles podem ter para fortalecimento político é o governo Lula. E o governo Lula tem um alto índice de popularidade; o presidente, ainda maior. É a única coisa que sobra para o PT. Jogar contra isso é uma insanidade política. Tem uma aceitação minoritária no partido. Já no governo, é uma carta que eles têm na manga e usariam tranqüilamente. Vão fazer umas críticas à política econômica aqui e acolá, mas se forem inteligentes vão elogiar o governo. Essa idéia de conspiração é muito forte. Pode haver uma ou outra voz na mídia com má vontade, de fato não há muitas vozes petistas hoje na mídia, mas não me parece que o STF tenha tomado uma decisão conspiratória contra o PT. Acho que isso é um exagero enorme. Mesmo havendo aqui e acolá uma má vontade, a mídia não está inventando os fatos, pode estar carregando aqui e acolá em relação aos fatos, mas não está inventando. Acho que a pior maneira de o PT responder - mais do que o PT, as pessoas envolvidas no processo - é se colocar contra a mídia, contra o STF. É um grande equívoco, até porque muitos desses podem se tornar inocentes daqui dois ou três anos.Não há menor dúvida de que o STF tomou essa decisão em parte por causa da pressão da opinião pública. Mas isso faz parte do jogo democrático. Aliás, sete ministros foram indicados pelo presidente Lula e o próprio procurador da República. Se continuar assim, vão dizer que o presidente está conspirando contra eles. O que ele queria dizer, e não vai dizer por questões internas, é que a reeleição dé um atestado de inocência política a ele e seu governo. Quando diz isso, está tentando separar aqueles que estão sendo acusados do seu próprio governo. Portanto, o que ele gostaria de dizer é ''olha, as urnas absolveram a mim. Portanto, não tentem misturar a crise do PT com a crise do governo'', o que do ponto de visa matemático-eleitoral é verdade. Agora, esses processos vão construir opiniões ao longo de anos. Esse processo não vai ter efeito imediato na popularidade do presidente. Daí, sim, só uma parte da mídia acredita nisso, o que é desconhecer o eleitorado brasileiro. Pode, sim, ser uma mácula para o governo no futuro. Mas, do ponto de vista eleitoral, não respinga.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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