PT amplia política de alianças e deixa brecha para apoio de rivais em 2012

No encerramento do encontro nacional, o presidente da legenda, Rui Falcão, atuou para barrar proibição de apoio dos adversários PSDB, DEM e PPS

Vera Rosa e Wilson Tosta / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 20h31

 

Depois de dois dias de debates, o PT aprovou neste domingo, 4, uma diretriz para as eleições municipais de 2012 que abre brechas para alianças com partidos de oposição. Embora a resolução do 4.º Congresso do PT diga que o PSDB, o DEM e o PPS são "adversários", com os quais os petistas não formarão chapa, o partido da presidente Dilma Rousseff barrou uma tentativa de última hora de proibir o apoio dos rivais.

 

Com o aval do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente do PT de Minas, deputado Reginaldo Lopes, subiu à tribuna para pregar que os partidos de oposição não fossem expulsos dos palanques. "O simbolismo de uma aliança está na chapa de prefeito e vice. Agora, nós vamos negar receber apoio? Se quiserem nos apoiar, vamos dizer não?", perguntou ele.

 

Em Minas, há uma articulação em curso para que o PT avalize a reeleição do prefeito Márcio Lacerda (PSB), com o apoio do PSDB. O atual vice-prefeito, Roberto de Carvalho (PT), brigou com Lacerda e prega candidatura própria. Lacerda e o senador Aécio Neves (PSDB), por sua vez, querem a reedição da parceria com o PT, vista com bons olhos por Lula. A polêmica rachou o PT em 2008.

 

"Nas eleições de 2008 nós fizemos, em Minas, 165 alianças com o DEM, 122 com o PPS e 222 com o PSDB. Então, não podemos ser hipócritas", disse Lopes. Na tentativa de conter uma rebelião petista que também queria impedir coligações com o PMDB, em 2012, o presidente nacional do PT, deputado Rui Falcão, afirmou que os petistas não podem querer impor hegemonia.

 

"Não podemos fazer alianças de esquerda e depois ir para a direção nacional e pedir exceções", insistiu Falcão, diante de um plenário lotado, convocado para reformar o estatuto do PT e aprovar uma resolução política sobre os desafios do partido.

 

No fim das contas, o texto que passou pelo crivo do 4.º Congresso diz que o objetivo do PT é ampliar a presença do partido e das siglas aliadas no comando dos municípios, especialmente nas capitais e nas cidades com mais de 150 mil eleitores. "Na prática, isso será avaliado caso a caso, lá na frente", disse o deputado Devanir Ribeiro (SP), diretor do Instituto Lula.

 

Críticas ao PMDB. Falcão teve de agir para defender a importância da aliança estratégica com o PMDB. Em tons diferentes, tanto a corrente "Mensagem ao Partido" – do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e do governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro – como o grupo "O Trabalho" queriam a exclusão do PMDB dos palanques municipais, em 2012.

 

O vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), e o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), receberam críticas contundentes do militante Júlio Turra, de "O Trabalho". A corrente de extrema-esquerda tem apenas 1% das cadeiras do Diretório Nacional, mas o grupo de Tarso e Cardozo é a segunda maior força no partido.

 

"Que interesse representa Michel Temer?", perguntou Turra. "Nós temos de fazer aliança com quem defende empresas públicas, e não com Sarney, Kassab e agora Collor", completou ele, numa referência ao prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), e ao senador Fernando Collor (PRB-AL).

 

Um grupo do PT também queria proibir a parceria com o PSD de Kassab, mas a votação sobre o assunto foi empurrada para o diretório nacional.

 

"Vamos proibir a coligação com o PSD para a gente não se arrepender de estar criando uma cobra. Nem o Instituto Butantã sabe ainda o veneno que ela tem", provocou o ex-ministro José Fritz. "Eu imagino que não podemos fazer restrições a um partido que ainda não existe, que tem a segunda bancada da Bahia e deve estar na base de sustentação do governo Dilma só porque somos oposição a Kassab em São Paulo", rebateu Falcão.

 

Com microfone em punho, o presidente do PT conseguiu derrubar, ainda, a proposta da corrente Mensagem ao Partido de formar um "núcleo programático" com as siglas mais afinadas com a esquerda, interpretado como, "nas entrelinhas, a exclusão do PMDB". "Não podemos aqui estreitar o nosso partido, nos apequenar. Não vamos passar para a sociedade a imagem de que o PT é um partido que tem medo das alianças", insistiu Falcão.

 

As críticas de petistas não surpreenderam a cúpula do PMDB. Para Temer, "essas manifestações mais radicais são facilmente superadas pela forte relação que consolidamos ao longo da aliança". Ninguém do PMDB, porém, compareceu ao 4.º Congresso do PT. (Colaborou Christiane Samarco)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.