PSOL suspeita de outro negócio de Renan

Partido quer saber como empresa da família Calheiros aumentou capital em 10.000% entre 2002 e 2005

Ricardo Brandt, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2005 | 00h00

A evolução do capital social da Conny Refrigerantes Indústria e Comércio de Sucos e Refrigerantes Ltda. - mais de 10.000% em quatro anos - mostra o ritmo astronômico em que prosperaram os negócios da família Calheiros, desde que o chefe do clã, Renan Calheiros, atual presidente do Senado, e seus familiares entraram para a política em Alagoas. Hoje na defensiva, pressionado pela oposição, em Brasília, para que deixe o cargo, e aguardando julgamento na Comissão de Ética do Senado - onde é acusado de fazer uso de recursos públicos para pagamentos pessoais - Renan é cobrado agora pelo PSOL, que protocolou no Congresso um pedido de informações: o partido quer saber como a Conny saltou de um capital inicial de R$ 200 mil, em 2002, para R$ 22,1 milhões em 2005.A Conny foi comprada em junho de 2006 pela Schincariol por R$ 27 milhões. Há suspeitas de que o grupo paulista aceitou o preço sobrevalorizado para beneficiar os Calheiros, em troca de uma suposta ajuda que receberia do governo - principalmente na revisão de dívidas e multas - com ajuda do senador.Os números são, de fato, incomuns no mercado de bebidas nacional. Fundada em fevereiro de 2002, a Conny tinha como sócios um irmão de Renan, o deputado federal Olavo Calheiros, e sua mulher, Ana Weruska. A empresa iniciou atividades com um capital social de R$ 200 mil. Segundo a ata de fundação, contava com R$ 30 mil do casal Calheiros e outros R$ 110 mil que seriam integralizados até o ano seguinte. Olavo tinha, então, um patrimônio pessoal de R$ 1,9 milhão.A Conny sempre contou com bons ares para prosperar. Logo de início, a família obteve um empréstimo de R$ 5,6 milhões do Banco do Nordeste (com parte do BNDES). Procurado, o banco, que é do governo, alegou sigilo fiscal para não informar quais garantias foram dadas por Olavo para obtenção do empréstimo. Uma das garantias foi uma fazenda - a de Capoeirão -, que, segundo acusações levadas à Corregedoria de Justiça do Estado, teria sido grilada (ver texto adiante).BENEFÍCIOSO terreno de 45 mil metros quadrados onde foi construída a fábrica, avaliado em R$ 750 mil, foi uma doação da prefeitura de Murici, a terra natal dos Calheiros. A prefeitura também anistiou as despesas da empresa com água pelo período de 3 anos. O prefeito, na ocasião, era o irmão de Renan, Remi Calheiros. Hoje, quem comanda a cidade é Renanzinho Calheiros, filho do senador.No ano seguinte, o capital foi elevado de R$ 200 mil para R$ 1 milhão. O valor seria integralizado ao negócio em 360 dias em moeda ou em bens.Os negócios, para quem via de fora, não iam bem. ''''A fábrica sempre funcionou de modo precário. Para nós da cidade, as coisas não decolaram. Tanto é que no começo eles contratavam pessoas, depois de três meses trocava todo mundo'''', disse um vereador da Câmara local, Caubi Freitas (PT do B).Ainda assim, em janeiro de 2005 o capital social de R$ 1 milhão da Conny foi aumentado para R$ 4 milhões. Antes que o ano acabasse, em 20 de dezembro, ocorreu nova mudança, mas desta vez fora dos padrões de mercado: a ''''ata de alteração contratual de nº 8'''' registrou um aumento de capital social da Conny dos R$ 4 milhões para R$ 22.160.000.Segundo o registro da ata feito em cartório, ao qual o Estado teve acesso, o aumento ocorreu ''''mediante a capitalização de R$ 19.460.000, provenientes das contas de Reservas de Reavaliação''''. Na prática, maquinário, o prédio e outros bens tiveram seus valores reavaliados. Só o maquinário foi avaliado em R$ 14,9 milhões.OUTRAS COMPRASNo momento em que foi comprada, a Conny abrangia 0,1% do mercado nordestino e vendia basicamente na região de Murici. No mesmo mês, a Schincariol adquiriu a Indústria de Bebidas de Igarassu, de Pernambuco, que fabrica a cerveja Nobel. A Igarassu tinha 10% do mercado pernambucano e capacidade maior de produção. Valor da operação: R$ 10 milhões. Em janeiro passado, foi comprada a cervejaria Baden Baden, de Campos do Jordão. Um negócio aparentemente mais rentável - ela chega a faturar R$ 5,5 milhões por ano - que custou R$ 30 milhões, pouca coisa mais que a Conny.Procurados, o deputado Olavo Calheiros e um de seus advogados não quiseram dar explicação para tal valorização nem fornecer os livros contábeis. O deputado não respondeu a nenhuma das ligações em seu gabinete na Câmara, em sua casa em Maceió, no escritório político e no telefone celular.Segundo os dados oficiais, seria impossível o deputado injetar dinheiro vindo de suas contas pessoais. Naquele ano de 2005, a declaração de patrimônio pessoal do deputado Olavo Calheiros mostra que ele tinha cerca de R$ 4 milhões em bens móveis e imóveis.

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