PSDB quer recuperar imagem

Convencida de que a oposição, especialmente o PT, está roubando dos tucanos a bandeira da ética na política e ameaçando a governabilidade da administração Fernando Henrique Cardoso, a cúpula do PSDB deixou de lado as divergências e adiou para o ano que vem o debate em torno de candidaturas. Em reunião no fim-de-semana para discutir as eleições gerais de 2002, os cardeais do PSDB decidiram que a prioridade é a união geral em uma ofensiva para recuperar a imagem do partido, que se confunde com a do governo. O PSDB quer ocupar a tribuna do Congresso e das Assembléias Brasil afora, com discursos que mostrem os exemplos da conduta ética e competente das administrações tucanas. Prepara, também, uma agenda de encontros regionais para estimular a militância a retomar a velha bandeira. ?Existe uma síndrome golpista que se cerca de moralismo, uma campanha para quebrar a governabilidade?, denunciou o ministro da Justiça, José Gregori. Segundo ele, só quem acredita em cegonha acha que o líder do PT no Senado, José Eduardo Dutra (SE), busca a verdade, quando propõe uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar corrupção no País. ?O que ele quer é parar o governo, no que conta com a ajuda da Bahia?, acusou Gregori, ao final do encontro que reuniu quatro ministros, seis governadores, líderes e dirigentes nacionais do PSDB. O secretário-geral do partido, deputado Márcio Fortes (RJ), explicou que há uma percepção generalizada no tucanato de que a troca constante de denúncias de corrupção entre o presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), e o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) acaba respingando nos aliados e no governo. ?As pesquisas indicam que há uma reação negativa da opinião pública, embora nenhum tucano seja pianista, anão do orçamento ou indiciado em CPI?, completou Fortes. ?A ética é nossa bandeira histórica desde que uma facção progressista do PMDB rompeu com o partido para criar o PSDB?, lembrou o governador de Goiás, Marconi Perillo. ?Temos que ressaltar ao País que não existe denúncia de corrupção contra nossos governadores, ministros e líderes, e que o comando do partido é limpo?, insistiu. ?Ética para nós não é um discurso; é nossa prática?, emendou o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.IntrigasA reunião, convocada pelo governador anfitrião, Almir Gabriel (PA), começou mal, com o veto aos líderes do partido na Câmara e Senado da lista de convidados, mas acabou em clima de harmonia, com um manifesto do ?partido da ética, das transformações e das administrações bem sucedidas?. A defesa do presidente abre o primeiro dos oito itens do documento, em que os tucanos reafirmam o orgulho pela ?competência, honestidade, coragem e o espírito democrático? de Fernando Henrique. Também ficou acertado que, antes de falar em nomes e parceria, os tucanos vão elaborar o programa do próximo governo, ?que servirá de base para o candidato e para a aliança?. Ao preparar o encontro, o governador do Pará deixou os líderes tucanos fora da lista de convidados, em razão das divergências pessoais entre o líder no Senado, Sérgio Machado (CE), e o governador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Mas diante dos protestos, Almir Gabriel recuou e todos compareceram ao encontro. ?Temos que acabar com as intrigas?, propôs o ex-governador do Rio de Janeiro, Marcelo Alencar. ?Só saio daqui depois de uma fotografia com o José Serra (ministro da Saúde), o Tasso, o Sérgio e o Jutahy (Magalhães, líder do PSDB na Câmara)?, brincou. Foi a senha para que o próprio Tasso esclarecesse de público que não vetará ninguém para a reunião e Almir assumisse a responsabilidade pela trapalhada. ?Se houve uma falha, ela foi minha?. Serra e Tasso, que disputam espaço dentro do partido e da aliança governista de olho na corrida presidencial de 2002, também fizeram questão de sentar lado a lado e partilhar do discurso em favor do adiamento da discussão das candidaturas para o ano que vem. Afinal, o manifesto apoiado por ambos diz que quem vai ditar as regras e comandar as negociações do processo sucessório é a nova executiva nacional que só será eleita na convenção marcada para 19 de maio. Os cardeais do PSDB não têm a ilusão de que o documento possa impedir os presidenciáveis do partido de fazer campanha. Referem-se especialmente a Serra, apontado por todos, nos bastidores, como o que mais se movimenta para garantir uma boa posição na corrida sucessória. O ministro foi o único tucano que não voltou para casa depois do encontro, estendendo ao domingo sua programação em Belém, para inaugurar um hospital ao lado do governador Almir Gabriel. Se a corrida presidencial começasse agora, ele largaria na frente dos companheiros de partido, com a preferência de 10% do eleitorado segundo as pesquisas. ?O resultado da reunião não o impede de prosseguir a campanha, mas pelo menos inibe?, avalia um dirigente do PSDB.

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