'PSB não é satélite do PSDB', diz dirigente

'PSB não é satélite do PSDB', diz dirigente

Sucessor de Eduardo Campos na presidência nacional do PSB, Carlos Siqueira afirma que independência permite apoio pontual ao governo e aliança com PT

Entrevista com

Carlos Siqueira

PEDRO VENCESLAU , O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2015 | 02h03

Escolhido presidente do PSB após a morte de Eduardo Campos, em agosto passado, o advogado especialista em direito eleitoral Carlos Siqueira, de 60 anos, vive um dilema desde a eleição de 2014: fazer oposição sistemática ao governo federal, como defende o PSDB, ou se reaproximar do PT? Nesta entrevista ao Estado, Siqueira sinaliza uma reaproximação com o antigo aliado, crítica posições dos tucanos e rechaça a pecha de satélite no projeto de poder do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Ao avaliar o processo eleitoral de 2014, o dirigente debita na conta de Marina Silva os erros que fizeram a campanha da sigla derreter na reta final.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara, esteve na quinta-feira com o ex-presidente Lula. Há uma reaproximação do PSB com o PT e o governo?

Nossa posição é de independência propositiva. Vamos dialogar com todas as forças políticas, inclusive com o governo e seu partido.

O PSDB tem advogado a formação de um bloco de oposição contundente. Essa então não será a linha do PSB?

Não faremos oposição sistemática. Podemos eventualmente apoiar projetos do governo, mas não vamos aderir ao governo ou reivindicar cargos. Foi formalizado um bloco do PSB com PPS, PV e SD. Assinei um documento com os demais presidentes destes partidos para que atuemos como uma federação de partidos. Vislumbramos a ação no parlamento, mas também as eleições municipais de 2016 nas capitais e principais cidades. Isso nos daria um pouco mais de 3 minutos de TV.

Faz parte dos planos fechar alianças com o PT em 2016?

Não descartamos alianças com outros partidos, inclusive com o PT. Eles é que têm dificuldade em nos apoiar. Não há preconceito. Mas nossa prioridade será dos partidos do nosso bloco.

Há algum setor no PSB que defende a volta do partido à base da presidente Dilma Rousseff?

Quando reunimos a executiva para afirmarmos a posição de independência propositiva, alguns companheiros tinham essa posição e queriam apoiar a reeleição da presidente. Tivemos uma certa flexibilidade em Estados como Paraíba, Amapá e Bahia, onde o PSB apoiou a presidente. A independência nos coloca em uma posição de analisar caso a caso para decidirmos nossas posições.

Algumas lideranças do PSB, como a deputada Luiza Erundina (SP), que é do diretório nacional, reclamam que a sigla está gravitando muito em torno do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Como avalia a relação com os tucanos?

Tivemos um episódio com eles, que foi o 2.º turno (das eleições presidenciais de 2014). Nunca fomos nem nunca seremos satélites do PSDB, assim como não fomos do PT.

Teme que o PSB saia menor das eleições de 2016 por estar fora do governo federal?

Não tememos. Já iniciamos o processo de consulta à militância. Perdemos nosso grande líder, mas temos um conjunto de lideranças intermediárias. Teremos com o governo federal uma relação republicana. Não compartilho da ideia dos pessimistas de que não vamos crescer por estar sem cargos e fora da Mesa (Diretora do Congresso).

Marina Silva sairá do PSB em abril para formar a Rede. O sr. gostaria que ela ficasse?

Marina Silva nunca foi do PSB. Ela filiou-se e foi bem vinda, mas sabemos que isso se deve ao fato de que a Rede não foi legalizada. Felicito ela por estar conseguindo montar seu partido, com o qual poderemos manter alianças. Nunca tivemos expectativa de que ela permanecesse no PSB. Não fizemos qualquer movimento para que isso ocorresse.

Durante a campanha, o sr. e ela tiveram atritos. Se arrepende de algo? Acha que errou no tom?

Estávamos em um clima demasiadamente emocional pela morte de Eduardo Campos, mas não faço autocrítica. Faria tudo outra vez se fosse necessário. Tive minhas razões para dar as declarações que dei. Eu não tinha disposição para continuar coordenando a campanha. Alguns jornais e revistas tentaram me dar espaço depois daquilo, mas a partir dali simplesmente me afastei. Deixei a campanha, mas não fiz qualquer movimento para prejudicar a candidatura. O insucesso não se deve em absoluto às minhas declarações e desavenças com Marina.

O PSB perdeu a eleição porque errou demais ou porque teve pouca estrutura e tempo de TV?

Houve erros muito grandes na forma como o programa (de governo) foi apresentado.

Quais?

O fato dele ter sido revisado depois de divulgado e de defender determinadas teses que não são do PSB. Isso foi o fundamental para que a campanha não conseguisse manter-se em ascensão depois da morte de Eduardo Campos.

O recuo do programa abalou a relação com movimentos sociais?

Aquilo foi uma posição da candidata, e não do PSB, que tem uma visão libertária da vida e é laico. Jamais aceitaríamos aquele recuo (na pauta LGBT). Todos sabem nessa área LGBT que aquela não era nossa posição.

Parecer do jurista Ives Gandra feito a pedido de um advogado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso indica que existe base jurídica para pedir o impeachment de Dilma. O que acha disso?

A decisão do povo precisa ser respeitada. Não se pode banalizar o impeachment. Não achamos que é hora de falar disso.

Os petistas chamam de golpismo a tese de impeachment.

Concorda com isso?

Não diria que é golpismo, mas é inoportuno esse tema. Não há razão para isso.

O que o sr. achou de o PSDB pedir auditoria da eleição?

Foi um erro. Eu não assinaria a petição do PSDB. Nós não pediríamos, pois não estamos questionando o resultado da eleição. Se admitimos esse sistema, devemos acatar o resultado. Apesar disso, não confio cegamente nesse sistema. O voto devia ser impresso.

Qual foi o impacto da morte de Eduardo Campos para o PSB?

O impacto foi enorme sobre a vida interna do PSB. Havia sobre ele uma expectativa de poder a curto e médio prazo. Mas o legado dele não vai envelhecer. Estamos lutando para que nosso partido não se transforme em um "peemedebezinho".

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