Próximo presidente terá de discutir a volta da CPMF, diz Lula

Presidente entregou ambulâncias no interior de SP em evento com a ministra Dilma Rousseff (PT) e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB)

Anne Warth, Agência Estado

25 de março de 2010 | 14h52

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomou nesta quinta-feira, 25, a questão da derrubada da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) no Senado, em dezembro de 2007, e reclamou da perda tributária de cerca de R$ 40 bilhões que o fim do tributo acarretou à União. Lula disse que esse tema terá que ser discutido pelo próximo presidente da República, independentemente de quem ganhe as eleições deste ano. "Eu quero dizer aqui a vocês: quem quer que seja presidente depois de mim vai ter que discutir mais dinheiro para a Saúde. Não tem alternativa. Não é possível fazer Saúde neste País sem dinheiro", declarou na presença dos dois principais concorrentes ao Planalto, a ministra Dilma Rousseff (PT) e o governador de São Paulo, José Serra (PSDB).

 

Em cerimônia para entrega de 650 ambulâncias da rede de serviço de atendimento móvel de urgência (Samu) para 573 municípios do País, na fábrica da Rontan, em Tatuí, interior paulista, Lula disse que a rejeição da CPMF no Senado foi uma "mesquinharia" que resultou na diminuição do orçamento da Saúde. "Fiquei muito magoado e ofendido quando a minha oposição no Senado roubou a CPMF. Não conheço um empresário no Brasil que reduziu o preço de seus produtos em 0,38%, que o que a gente pagava no cheque", disse o presidente em referência à alíquota descontada dos depósitos bancários até 2007.

 

O presidente voltou a criticar a cobertura da imprensa sobre assuntos referentes a seu governo. Ele disse que seguramente seria recriminado por ir a Tatuí participar da cerimônia de entrega de ambulâncias, mas justificou que sua presença era imprescindível para que o investimento tivesse espaço nas páginas dos principais jornais do País. "Eu venho porque senão não vai ter nem uma nota de rodapé de nenhum jornal deste Brasil. Mas se morre alguém na estrada por falta de ambulância, ocupa todos os espaços da televisão em rede nacional", afirmou. "Quem quiser falar mal de mim, que fale, mas as coisas que eu faço, eu mostro", disse sob aplausos da plateia formada por trabalhadores da empresa. Lula prometeu que voltará à fábrica em julho deste ano para entregar mais 1.600 ambulâncias para outros municípios do País. "Podem estar certos", disse.

 

Em seu discurso, o presidente também fez uma defesa veemente do Sistema Único de Saúde (SUS), que na sua avaliação é "o melhor plano de saúde da América Latina", embora tenha reconhecido que há deficiências. Ele fez questão de citar que paga um plano de saúde privado, mas que grande parte dos serviços de excelência em Saúde, entre os quais transplantes, são financiados pelo SUS. "Muitas dessas coisas chiques que vocês veem na televisão são pagas pelo SUS. Quem faz transplante nesse País tem o serviço pago pelo SUS", ressaltou.

 

Lula aproveitou o momento para relembrar um desentendimento com o ex-prefeito do Rio de Janeiro César Maia (DEM), sem citá-lo diretamente. O presidente contou que, quando lançou o programa do SAMU em 2004, houve prefeitos que receberam ambulâncias e as trancaram nas garagens das prefeituras unicamente porque eram do governo federal. "Ele agiu com mesquinhez e não colocou as ambulâncias para carregar doentes em sua cidade. Todo mundo sabe que eu estou falando de um prefeito de uma cidade grande que não é do Estado de São Paulo. Estou falando exatamente da capital do Rio de Janeiro, em que o ex-prefeito escondeu as quase 80 ambulâncias que tinha para não colocá-las para funcionar", lembrou. "Nem o Bolsa Família eles cadastraram porque acharam que o governo federal não deveria chegar para os pobres do Rio de Janeiro".

 

Depois, Lula divertiu a plateia ao falar sobre seus exames de saúde. "Todo ano eu vou a um hospital em São Paulo fazer um check up. Só que agora o check up é feito por máquinas; os médicos não falam mais com você, falam bom dia e até logo", disse. "A única voz que você ouve hoje no hospital é a da mocinha que fala: respira fundo, tranque a respiração. Ou quando você entra em um tubo que parece um caixão de defunto. Um dia eu entrei num e achei que não fosse sair mais". Lula disse que depois que virou presidente há sempre 30 médicos à sua volta e que isso não ocorria quando ele era metalúrgico. "E certamente, Serra, não vai acontecer quando eu deixar de ser presidente", disse Lula. "Político sem mandato, pode ver, nem vento bate nas costas".

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